Sua revista escolar de filosofia.

domingo, 15 de maio de 2016

#Heraclitianas

São rochas
As areias que hoje vagam
Ao vento
Um dia, foram
Como tudo o que é
E amanhã não mais será

O mundo é um sonho

Sonhado com olhos arregalados
Para a realidade e seus dialéticos recados
Consumidos no fogo por ela alimentado

Chama imortal
Põe tudo em movimento
Faz do ser o seu oposto
E de novo e de novo
No eterno renovar

Ilusão é acreditar
Que se há de chegar à verdade
Nem inteira, nem metade
Porque o tempo não descansa
O intervalo do minuto:

Tudo é relativo
Isto é absoluto

imagem: zoom Escola de Atenas, Rafael Sanzio, 1511

segunda-feira, 9 de maio de 2016

#Marxianas


Roubam-te a bússola do futuro
Tiram-te os portos de esperança

Para que navegues sem rumo

Nas brumas da incerteza

Fazem do teu corpo óleo

Da tua alma lenha

Que nutrem a máquina antiga

Sustento dos pilares da Terra

Construídos sobre sonhos adormecidos

Das classes insones furtadas

Pelos que suam o suor alheio

E fazem dele o sal da vida que parasita

Multidões que trabalham

Para que eles descansem
 
imagem: uol

quarta-feira, 30 de março de 2016

Aprendiz filosofando

Filosofar é a maneira de se aprender filosofia.

Não apenas repeti-la como pensamentos transmitidos, mas anunciá-la como aquisição do próprio intelecto. 

Esta didática mostra comoventes resultados quando aquele que ensina filosofia percebe o aprendiz filosofando. 

Quando se vê um aprendizado construído com base na reflexão que caracteriza a filosofia: uma atividade racional que se aprimora e se expressa com exatidão na linguagem.


É na linguagem que o cosmo, o desejo, o imaginário se elevam até a expressão. Paul Ricoeur


O mundo representado na consciência se torna linguagem para ser exposto, comunicado. Na linguagem mora a filosofia ou como diz Heidegger, a linguagem é a casa do ser, já que nela se manifesta o sentido das coisas.



Sobre isto, a estudante Letícia Lovato, do segundo ano da E. E. E. M. Santa Isabel, em Viamão, RS, filosofou o texto que deixamos para vocês.


A filosofia mora na linguagem


Para começar eu nunca entendi muito de filosofia, por isso talvez não saiba falar sobre esse assunto direito, mas refletir sobre isso é uma coisa que me ajuda a construir minha própria opinião sobre acontecimentos e tudo mais que é discutido na filosofia.


Então na minha opinião a filosofia mora na linguagem porque geralmente nos vários tipos de linguagem que tem, a filosofia está presente na forma de se expressar, até de se comportar. Filosofia e linguagem são duas coisas que na minha opinião andam juntas, porque filosofia é estudo do pensamento, lógica, questionamentos, entre várias outras coisas, mas enfim acho que se não fosse pela linguagem a filosofia não poderia ser isso, e por exemplo, como vamos achar lógica nas coisas se não for ter uma linguagem certa sobre aquilo, pra te explicar e te fazer compreender a lógica do que está sendo falado, e como vamos questionar sem uma linguagem certa junto com a filosofia?

Letícia

RICOEUR, Paul. O conflito das interpretações. 1978.
imagens: Letícia Lovato; tcd 
Texto e imagem publicados com autorização de Letícia Lovato

sábado, 5 de março de 2016

Αλήθεια.

Algumas vezes, conceitos tratados pela filosofia são resgatados e caem novamente no domínio público.

Novamente, porque, em dado momento, eles foram parte do ethos ou da episteme de um povo que o constituiu e o consagrou.

É o caso da palavra alétheia, usada para batizar a operação da Polícia Federal que no dia 04/03/2016 levou o ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva a depor obrigado pelo instrumento de condução coercitiva. Uma detenção temporária para prestar esclarecimentos em um inquérito, no caso aqui, parte das investigações de corrupção da Lava Jato.

Alétheia.

Αλήθεια.

Significa o que é lembrado, o não esquecido. Vem do grego léthe, esquecimento, com o prefixo “a”, negação. A alétheia é uma concepção de verdade ligada ao mito da encarnação das almas, quando bebiam a água do rio Léthe, que impregnado pela deusa de mesmo nome, fazia o homem esquecer a verdade do mundo inteligível. Na República há o relato posto por Platão no mito de Er. 

No mundo original está a essência do Ser.

Lá, a justiça, por exemplo, é ideal e perfeita, modelo a ser copiado no mundo material para realização do bem. Pretender a alétheia é querer alcançar o extremo da verdade.

O que é a essência do justo? 
Há a justiça perfeita? 
Como ela é?  

A concepção platônica aponta para o dualismo da realidade, sendo primordial a intelectiva e ideal, da qual deriva em simulação transitória e imperfeita do real concreto. 

Para os gregos, o ser estava dado como fato real e objetivo. 
Conhecer significava apreender a totalidade da coisa em sua estabilidade e identidade. 

O que é a coisa, sua causa? 

Parmênides diz que o ser é aquilo que é e sua essência só se alcança racionalmente.
O ser é razão.

"Pensar e ser são idênticos." 

É um exemplo de como os gregos tratavam o conhecimento e a verdade: o ser é verdade em si mesmo que o sujeito capta. 

A verdade está em o sujeito atingir o ser-em-si. 
O objeto (ser) se mostra ao sujeito e o condiciona. 
O que se conhece é o que o objeto revela. 

O que é o fato?

A operação policial sugere que quer a verdade radical dos acontecimentos. 

A epistemologia moderna se preocupa com o processo do conhecimento e as faculdades do sujeito.

Como é possível conhecer? 

Para os antigos, a preocupação é: como é possível se enganar, se o ser é fenômeno dado? 

Alétheia é a perfeita adequação entre o intelecto e a própria coisa, diferente da noção de veritas, a verdade por correspondência entre os enunciados da linguagem e as coisas.



Alethéia pretende conhecer a realidade ou irrealidade da própria coisa.
Veritas, a verdade ou a falsidade do discurso sobre a coisa. 

Alethéia é evidência.

Verdade manifesta e intuída do ser que é fato, que é fenômeno, onde não há espaço para seu oposto, o pseudo, o engano. 


link: FolhaSP
imagem: internet, OSul

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Você é uma pessoa íntegra?


Uma palavra pode resumir a relação entre honra e autoconfiança:

integridade.

Será que sim?

Integridade é coerência entre os diferentes níveis de desejos, comprometimentos e ações. 

Para a filosofia prática, ela expressa um caráter confiável harmônico cujas atitudes podem servir de modelo de conduta por realizar valores positivos, úteis, sejam eles princípios deontológicos ou consequencialistas.

Se a honra for tomada por valor de bem, ela se impõe como dever. Uma vez admitido, este dever se transforma em parâmetro prático. O indivíduo honrado não age por interesse outro, mas por autonomia e no cumprimento do dever. 

Não trai e não se trai, ao modo kantiano, porque seu dever está acima de tudo. Se a honra for aplicada por razão de sua consequência, ela é preferível enquanto produzir resultados bons para o sujeito e a sociedade.

A ação é convicta, intra e intersubjetivamente.


"Uma pessoa carece de integridade caso aja contrariamente a seus comprometimentos ou valores de ordem superior, porque ela não seria verdadeira para consigo própria, agindo em oposição ao que é importante para ela." FURROW, Dwight. Ética. p. 146.




Você se considera íntegro?



imagens: Filosofía Hoy, Amazon


sábado, 12 de dezembro de 2015

Um belo plágio

A filosofia está por aí.

Não pertence a ninguém, é de cada um.

Como diz Comte-Sponville, "trata-se de pensar melhor para viver melhor." 

Pensamos melhor quando pensamos por nós mesmos, mesmo que cheguemos às conclusões de outros. A diferença é que não aceitamos por aceitar, mas concordamos por convicção e aderimos com crítica autônoma ao saber que faz sentido e serve à conduta.

Por exemplo, a pergunta elementar da ética, "como viver?" é o despertar de muita filosofia.
E no filosofar, podemos trazer à argumentação o pensamento de quem nos antecedeu.

A citação de Jim Morrison, vocalista do The Doors e um dos mais influentes artistas do século XX, segundo a revista espanhola Filosofía Hoy, revive o pensamento de Epicuro, mestre do hedonismo grego do século IV a.C.

Vamos ver o que diz Epicuro:

"Habitua-te a pensar que nada é a morte para nós: pois todo mal e todo bem se acham na sensibilidade: e a morte é a privação da sensibilidade. O mais horrendo dos males, então, a morte, nada representa para nós: pois, enquanto existimos, a morte não existe, e, quando existe a morte, então nós já não existimos. Por isso, é insensato aquele que diz temer a morte, não porque lhe doerá quando ela chegar, mas porque lhe dói ao prevê-la [...]" (Epicuro, apud Mondolfo, p. 79) 

Agora, o que diz Morrison, conforme a revista: 



Ayer fue el aniversario del nacimiento de Jim Morrison, poeta y vocalista de la banda estadounidense The Doors.
Nos quedamos con esta cita suya, que bien podría haber salido de la boca del mismísimo Epicuro. ¿No creéis?


Então, não é um belo plágio?

imagem: Filosofía Hoy

domingo, 29 de novembro de 2015

Lugar nenhum

Sobre os desencantos pós-modernos e a angústia contemporânea:



"A alma que não tem objetivo estabelecido se perde, pois, como se diz, estar em toda parte é não estar em lugar nenhum." 


Montaigne, Ensaios.


imagem: montaigne-paris.fr


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Por que filosofar?

A

                                     
       filosofia é




o intelecto respirando.





imagem: Andy Singer

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

"Os que estão contra mim"

Filosofia só é possível filosofando.

“[...] de mim não aprendereis filosofia, mas antes como filosofar, não aprendereis pensamentos para repetir, mas antes como pensar”. KANT, Crítica da Razão Pura. 

Ousar saber é maturidade intelectual de cada indivíduo que, somados, fazem a cultura iluminada de um povo. 

Quem sabe, um dia, cultura de toda a humanidade, inclinada por natureza ao saber, como diz Aristóteles. 

Para chegar lá, é preciso esforço intelectual.
Aquele que conquista a autonomia. 

Que faz do filosofar, atividade crítica, sistemática e reflexiva insistente, metódica, mas criativa. 

Esta é a ideia central do texto de Agostinho da Silva, filósofo português. 

Dele, deixamos um texto que é um clamor ao saber. 

Meu caro Amigo: do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros, se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu, do que todos os acertos, se eles forem meus, não seus. Se o criador o tivesse querido juntar muito a mim não teríamos talvez dois corpos distintos ou duas cabeças distintas. Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição venha a pensar o mesmo que eu; mas nessa altura já o pensamento lhe pertence. 

São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem. […] Você tem a liberdade para decidir: pode ser literato, ou retórico, ou simples homem vibrando, ou filósofo […]. Mas seja filósofo a sério. Procure compreender os sistemas dos outros antes de criar um seu: se acha errado um grande filósofo, pense sempre que o erro é seu: é fora de dúvida que se não pôs e não venceu a fácil objecção que você lhe levanta (e talvez você até ao fim da vida só possa levantar fáceis objecções), é porque ela não tem razão de ser e vem dum engano seu. 

Estude ferozmente, com os dentes cerrados, empregue toda a sua força, estoire os músculos: ou você domina a filosofia ou a filosofia o domina a você: só quem é forte se apaixona; mas se você for ovelha ante os filósofos, só lhe resta um destino: o de balir. É preciso que haja no seu combate e logo nas horas de princípio um tal ímpeto de ataque, uma tal segurança de passo, que nenhuma fortaleza lhe possa resistir; empregue-se todo na sua faina, vá pelo simples à variedade, pelo especialismo ao total; ganhe primeiro uma disciplina, só depois se poderá lançar em aventuras. 

Sete cartas a um jovem filósofo.

imagem: rtp.pt

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Viver ou morrer?

Se você fosse um doente terminal, preferiria morrer? 

Escolheria a morte voluntária assistida, a eutanásia, como é permitido em alguns estados como Oregon, Montana nos Estados Unidos ou em países como a Bélgica? 
Mesmo quando há uma procuração ou autorização, ela é legitimada pelo indivíduo, que a expressou enquanto cognitiva e emocionalmente capaz. 

O assunto é sério, implica uma profunda reflexão e remete a liberdade do arbítrio de cada sujeito e o que ele faz em relação à própria vida. 

Peter Singer, utilitarista australiano que milita em causas relacionadas à ética, sendo um dos mais influentes filósofos contemporâneos, defende a livre decisão privada nestes casos. Nem a lei, nem a moral possuem legitimidade ao arbitrar sobre a ação individual naquilo que o indivíduo faz com sua própria vida, pois entende-se que o sujeito é soberano e independente para deliberar e agir em relação a si. 

Vejamos um pouco do ponto de vista utilitarista.

O cálculo utilitarista prevê que a autonomia do indivíduo seja exercida a partir do critério elementar do prazer e da dor.

Pode ser?

Vejamos o correspondente epicurista: prazer e dor são sensações do corpo e o homem é essencialmente estético, material, biológico. A natureza o dotou, como a outros seres sensíveis, deste critério anterior à racionalidade para ele conduzir sua ética. Por isto o hedonismo tem o prazer como móvel da ação. 

Uma vida feliz é uma vida de prazeres. 

A prudência entra como segundo critério que permite julgar com maior propriedade se certos prazeres são necessários à vida feliz ou não. E como o sujeito tem na base da experiência as sensações, temer a morte ou o julgamento moral dos deuses é ingenuidade. A morte é o fim das sensações, os deuses são indiferentes, a realidade físcia é regulada pela mecânica dos átomos.

Para o utilitarista, a boa ação é aquela que aumenta o prazer da maioria e reduz a dor. Em casos clínicos irreversíveis, o sofrimento que causa no doente e no círculo próximo a ele, poderia ser diminuído com a morte voluntária. Ela cessa a dor do doente e restabelece assim as condições para construir novo bem-estar nos que ficam.

Parece justo se o sofrimento for visto como desprovido de qualquer utilidade.

Parece lícito se depois da morte houver o nada.

Parece ético se cria um parâmetro pelo qual a comunidade possa balizar a decisão privada nestes casos.

Mas, e as outras éticas que afirmam um fim para a vida humana em qualquer condição e vetam ao homem dispor da própria vida sendo ela um bem maior em si?


Valores éticos, como diz Wittgenstein, são transcendentais.

A ética não faz parte do mundo.

Não se exprime por proposições. 

Não é a descrição de um estado de coisas objetivo. 


Como é que fica? 

link: youtube
imagens: bioedge, valorizeaebd, numerocin