Sua revista escolar de filosofia.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Gramsci e a Venezuela

O grupo militar conhecido como 4F, doutrinado na revolução socialista e próximo às ideias de Hugo Chávez dá sinais de que abandona o governo de Nicolás Maduro.

Isto pode significar o fim do chavismo.

Há razões para acreditar nisto?

Uma análise conduzida por conceitos desenvolvidos por Antonio Gramsci permite lançar um olhar crítico sobre a situação no país.

Clique aqui e leia uma opinião no Capinando.

foto: Reuters
link: International Gramsci Society

Você quer aquilo que quer?

Slavoj Zizek, filósofo contemporâneo em evidência por sua crítica política marxista, teve um pensamento citado há alguns dias pela revista espenhola Filosofía Hoy.

Eis o que publicaram no prefil do Facebook e que também repercutimos na fan page do blog e agora trazemos para cá, para você que não usa a rede social:

"Na realidade não queremos conseguir aquilo que pensamos que queremos."

Você concorda com isto?
Por quê?

Vamos a algumas breves considerações que podem ajudá-lo a refletir.

Queremos e buscamos aquilo que queremos. Mas, quando obtemos a satisfação do desejo, sentimos que ainda nos falta algo e que o objeto cobiçado pode nos dar certo conforto, porém, não nos dá felicidade.
 
É o amor descrito por Platão, do querer ausente.
 
O capitalismo opera despertando desejos e criando necessidades que levam ao consumo com base neste princípio, do desejo em possuir o objeto da felicidade que jamais é atendido. Para compensar a sombra dos impulsos da alma e afastar das ilusões do mundo do devir, alguns filósofos propõem a felicidade no ser eterno e transcendente, infinito e perfeito, ao contrário do homem. Outros oferecem o Estado total, justo e absoluto para criar aqui e agora uma sociedade material e feliz que afaste o sujeito das armadilhas de suas próprias inclinações irracionais e de idealismos improváveis. 

Então, o que você pensa sobre o assunto?

fonte e imagem: Filosofía Hoy/Facebook
 

 

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Espírito e matéria: uma antiga questão


A dualidade do real é questão essencial para a filosofia.

Aquilo que é matéria. 

Aquilo que é espírito, natureza ou logos e como se relacionam na constituição do ser. 

Anaximandro (547 - 610 a.C.), discípulo de Tales, introduz na filosofia a ideia de princípio do ser a partir do que chamou de ilimitado, essência esta eterna e imutável. Em contraposição, está tudo o que é gerado e perece. Para o filósofo de Mileto a realidade não é originada por qualquer elemento físico natural, como para Tales, que postula a água como princípio do ser.

De Anaximandro restam três fragmentos originais de seu pensamento que, de algum modo, repercutem na filosofia até nós como o conceito do logos divino e da inferioridade e impermanência da existência física. 


Diz o filósofo:

- Todas as coisas se dissipam onde tiveram a sua gênese, conforme a necessidade; pois pagam umas às outras castigo e expiação pela injustiça, conforme a determinação do tempo.
- O ilimitado é eterno.
- O ilimitado é imortal e indissolúvel.

 

Quantas vezes você ouviu falar de ideias relacionadas a estes pensamentos, dos mais diferentes modos?

Pense nisto e faça um exercício argumentativo a partir da ideia de Anaximandro de que o ilimitado é a força que cria a realidade. 

FORME GRUPOS DE ATÉ 5 INTEGRANTES. 

CRIE UM TEXTO (um por grupo com os nomes de todos) DEFENDENDO A TESE DE QUE A ESSÊNCIA DA REALIDADE NÃO SE DESTRÓI E NÃO PODE SER PERCEBIDA PELOS SENTIDOS, POR ISTO NÃO PODE SER DEMONSTRADA PELA CIÊNCIA, APENAS PELA FILOSOFIA.   

Escreva no seu caderno. 

imagem: Nueva Acrópolis - fragmento Escola de Atenas
BORNHEIM, Gerd. Os filósofos pré-socráticos. São Paulo: Cultrix, 1991.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Uma pitada de conservadorismo

A ideia de uma comunidade humana universal exige legislação e ética que sejam transnacionais para ser realizada.

Requer também economia equilibrada entre os países.
Algo distante.

Blocos regionais como a União Europeia demonstram a dificuldade de se atender de modo conjugado aos interesses nacionais dos participantes e ainda manter relações internacionais saudáveis com outros países fora da comunidade.

Nas eleições europeias realizadas no fim de maio, houve crescimento da preferências do eleitorado por políticos conservadores que são contrários ao bloco, os chamados eurocéticos, críticos da moeda única, o Euro. As razões orbitam entre a ineficência de governos em retomar o crescimento econômico decadente pela crise global e também em refrear a imigração, o que agravaria os problemas do desemprego.

O pleito deixou em alerta os analistas políticos, pois, claramente sinaliza o que consideram um retrocesso na abertura conquistada com intenção ao fortalecimento de concepções nacionalistas. Mesmo sendo uma tendência esperada em alguns países, o fato é recebido com preocupação.


Carlo Cattaneo (1801-1869) defendia a ideia do federalismo como pacto político capaz de ampliar direitos e garantir os macanismos adequados de prosperidade social e bem-estar individual e coletivo, espiritual e material. Sobre a Europa de seu tempo, Cattaneo dizia que "só teremos paz quando tivernos os Estados Unidos da Europa." (1991, p. 270)

Reformista, o filósofo italiano acreditava que por meio das leis se poderia instituir uma sociedade melhor, sem a necessidade de uma revolução de inspiração marxista. Suas ideias foram fundamentais para o processo de reunificação da Itália.



A União Europeia foi concretizada em processo legislativo, mas os conflitos de interesses, as diferenças étnicas, os estranhamentos culturais, dos desníveis econômicos, as divergências ideológicas geram tensões políticas, quando não, sociais. E os impasses podem criar entraves para toda a cadeia de relações que vão da diplomacia ao comércio internacional.

Reflexo de uma pós-modernidade conturbada por problemas materiais e ideais que se agravam e que confirmam a cada geração o quanto as promessas modernas foram falseadas.

Uma pitada de conservadorismo

O parlamentar polonês Janusz Korwin-Mikke, do partido KNP, passou a integrar agora o Parlamento Europeu. Conservador libertário, como se diz, o político de 72 anos é radicalmente contrário à União Europeia.

Segundo ele, os imigrantes que vão para a Europa procuram por benefício sociais e o parlamentar é contra conceder este tipo de benefício.

Korwin-Mikke é contra o voto das mulheres e explica que elas não votam em mulheres, votam em homens e preferem ser comandadas por eles. Defende castigos físicos, é contra hospitais públicos, programas sociais e tenta isentar Hitler de responsabilidade pelo holocausto. (leia mais aqui)

Pensamentos deste tipo, retornando ao poder europeu, entram em choque com ideias de progresso, autonomia e paz.

Você, com quais ideias se identifica? Por quê?
Há uma razão absoluta na História e um fim positivo no Estado, como pensava Hegel?
Ela segue um plano divino, como afirmava Agostinho?
A lei do progresso dita por Saint-Simon?
É construída no balanço entre justiça social e liberdade privada calculado por Stuart Mill?
Depende da dialética materialista luta entre classes, segundo Marx?
Não há lógica alguma, só o cego acaso, como era a vontade de Schopenhauer?

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia. Vol. III. São Paulo: Paulus, 1991.
fontes: BBC, Folha SP
imagens: leandro colon,  cesareangelini

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Militares tomam o poder na Tailândia. É golpe?

A Tailândia, no sudeste da Ásia, está sob lei marcial e sob o controle do Exército nacional.

O anúncio foi feito hoje às 17h do horário local, 7h no horário de Brasília, pelo general comandante Prayuth Chan-Ocha em rede de televisão. Com a medida, a Constituição foi suspensa temporariamente.

A decisão ocorreu após o fracasso para encontrar saídas políticas para a crise no país que se prolonga desde 2006 e já resultou em 28 mortes. Segundo o Exército, a ação tem por objetivo a restauração da ordem civil.

É a instalação de uma ditadura?
A medida se faz necessária e justifica-se ou seria melhor manter o status civil democrático, mesmo em colapso, pela manutenção do princípio das liberdades políticas?

Vamos refletir com Rousseau.

"Mas só os perigos muito grandes podem compensar o de alterar a ordem pública, e jamais se deve sustar o poder sagrado das leis, senão quando se trata da salvação da pátria. Nesses casos raros e evidentes, previne-se a a segurança pública por um ato particular que confere a responsabilidade ao mais digno. Essa comissão pode se dar de dois modos, segundo a espécie de perigo. Se, para remediá-lo, basta aumentar a atividade do Governo, há que concentrá-lo em um ou dois de seus membros. Desse modo, não é a autoridade das leis que se altera, mas somente a forma de sua administração. Se o perigo for tal que o aparelho das leis represente um obstáculo a evitar, nomeia-se então um chefe supremo que faça com que todas leis se calem e, por um momento, suspenda a autoridade do soberano. Em todo caso, a vontade geral não é duvidosa e evidencia-se, como primeira intenção do povo, que não pereça o Estado." (Do contrato social, cap. VI, Da ditadura)




A vontade geral, segundo Rousseau, o consenso necessário para que a Constituição seja o soberano legítimo. Significa que o soberano é a configuração máxima da liberdade política ao representar a forma expressa da relação civil onde cada indivíduo entrega parte de sua liberdade particular para receber a liberdade social contratada.

Ou como diz Montesquieu, liberdade "é o direito de fazer tudo aquilo que as leis permitem." (1990, p. 754)

No caso da Tailândia, tomamos a Constitução por teto legal civil e por soberano. Estando as leis e as instituções em crise severa e sem poder de aplicar as normas, o instrumento do Estado de Exceção é a medida de segurança aplicada para resturar a ordem.

O próximo problema passa a ser a decorrência da medida.

Ela tem apoio popular para ser obedecida e com isto recuperar a paz interna e o restabelecimento da lei democrática?
Uma vez no poder, as forças armadas vão largá-lo aos partidos políticos após a contenção da crise?

Até o momento os Estados Unidos não consideraram a ação militar um golpe de Estado.

O chamado pronunciamento militar, distinto do golpe, é uma medida enérgica contra um governo e que provoca sua deposição sem a intenção de usurpar o poder ou alterar o sistema vigente. Seria o caso?

E você, acredita se tratar de golpe?

fontes: ZeroHora
REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia. Vol.II. São Paulo: Paulus, 1990.
Ministério da Educação, Argentina
imagens: AFP, wikipedia

domingo, 11 de maio de 2014

Paulo Freire online

Paulo Freire é um dos pensadores mais influentes quando o assunto é educação.

Adorado por muitos, criticado por outros, Freire é um expoente obrigatório a ser conhecido por quem se interessa pelo tema. Suas ideias de uma pedagogia libertária conectada com a realidade social e suas desigualdades são essenciais para entender o processo do ensino e da aprendizagem no contexto educacional contemporâneo.

A obra de Paulo Freire e outras publicações relacionadas ao autor poder ser acessadas online.

Clique aqui, relembre, reforce ou descubra o universo deste intelectual brasileiro.

imagem: pedagogyoftheoppressed

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Você leva isto a sério?

Por que filosofar?

Porque não se trata de um dever moral, mas de uma necessidade de usar a inteligência para viver um pouco melhor, já que a vida é muito difícil.

Este pensamento é de André Comte-Sponville, filósofo francês contemporâneo.

Como dira Pascal, o homem é ontologicamente f'rágil e forte, miserável e grande.

Mas, diferente de Pascal, que via a razão como impotente para resolver as questões humanas fundamentais, Comte-Sponville defende a filosofia e sua capacidade de oferecer respostas racionais para as inquietações da existência.

Comte-Sponville tem umas tiradas provocativas.

No seu livro Dicionário Filosófico ele afirma, por exemplo, que o mito é "uma fábula que é levada a sério."

Você leva isto a sério?

Se desejar conhecer um pouco melhor o filósofo, leia aqui uma entrevista dele a Gabriel Arnaiz para a revista Filosofía Hoy.

imagem: Roger Marrón

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Você vai 'descartar' isto?

Uma reflexão cartesiana.

Agir segundo a verdade é ser autônomo, pois significa seguir a própria razão.
Porém, a razão é melhor exercida quando ela se aplica em conhecer clara e distintamente a realidade.
Assim, é pela via intelectual que cada um afasta opiniões vulgares e cultiva conhecimentos seguros.
Deste modo, o progresso intelectual aprimora a vontade e conduz às melhores ações.
E as melhores ações são as verdadeiras.
Logo, a liberdade não é fazer o que se deseja, mas, fazer o que é verdadeiramente correto.





Você vai 'descartar' isto?









imagem: atheistnexus

Na Hipermodernidade


Na hipermodernidade o indivíduo se satura de si mesmo. Frui tudo, consome tudo no presente hiperbólico. Na angústia por se eternizar, eterniza o prazer pela repetição das sensações. Hipermercado, hiperfesta, hiperturismo, hiperexposição, hiperdemocracia, hiperopinião, hiperdiálogo, hipermonólogo.
 
 
O outro está ao lado, mas está distante como se fosse outra galáxia. Cada um orbita em si, solitário como estrela de brilho rápido, ávido pelo combustível que o mantenha aceso. Ama-se menos o ser amado do que o próprio umbigo. Altruísmo e egoísmo são emoções na moda e que se quer viver para se reconhecer vivo.
 
Já não são conceitos morais tradicionais.
Já não há tradição.
 
Ela também virou objeto presentificado para satisfazer ao consumo. Olha-se para o passado, as raízes estão mortas. Mira-se o futuro, as utopias são vapores. Só se vê o presente e a condenação à liberdade angustiante.

Hipermodernidade: conceito de Gilles Lipovetsky
 
Publicado originalmente no meu Facebook
imagem: Salvador Dalí 

segunda-feira, 7 de abril de 2014

É transcendental!

Faturas a pagar e R$ 600,00 em dinheiro.

Foi o que Marco Antônio da Silva achou em uma parada de ônibus na cidade de São Leopoldo (RS).

Ele pegou o dinheiro, as contas e pagou todas elas.
Depois procurou a dona do valor e dos documentos para devolver o troco.

Esta é uma atitude que merece o Selo 100% Ética!

Comovente.


Isto, porque Marco Antônio venceu qualquer inclinação pessoal, eliminou qualquer interesse seu em favor do cumprimento de um dever.

Se ele pensasse de modo utilitarista, talvez fizesse o cálculo: este dinheiro pagaria as contas de uma pessoa e enriqueceria x credores. Porém, poderia comprar mais coisas e alegrar mais pessoas, fazendo um bem em maior quantidade. Então, ficaria com o dinheiro.

Se fosse um contratualista, poderia alegar que o dinheiro achado não é criminoso. É uma casualidade positiva para quem o encontra e nada na sociedade impede que se fique com o valor. Ficaria com o dinheiro.

Se fosse um pragmático, poderia alegar que o dinheiro salvaria débitos dele que considera ainda mais graves do que as contas achadas, então optaria por ficar com a grana para atender a um compromisso maior.

Mas, pensando como um intencionalista, Marco Antônio considerou: se fosse meu dinheiro e minhas contas, gostaria que me restituíssem. Ou seja, o valor está na intenção, nela repousa o bem a ser praticado.



Spinoza diria algo do tipo: "Este rapaz entendeu a virtude como ação que aumenta a alegria, logo, eleva a potência de agir. Ele sentiu isto e agiu por correspondência ao próprio divino que está nele. Ao mesmo tempo, alegrou a dona do dinheiro, elevando nela a satisfação pela vida! Celestial!"






Kant elogiaria o Marco nestes termos: "O Imperativo Categórico é bem exemplificado aqui. No lugar de buscar móbiles pessoais para a ação, procurou agir de modo a tornar sua atitude uma regra universal. Cumpriu com um dever da razão de modo livre, guiado apenas pela sublime moral. É transcendental."





Até mesmo o estoico imperador Marco Aurélio, xará do protagonista desta história celebraria: "Valoroso, este jovem. Seu gesto vai além do dever e configura a ação de um sábio. Age conforme o Logos Eterno. Tem Deus na mente. Bendito seja!"




fonte: Correio Braziliense
imagens: CB, internet divulgação