Sua revista escolar de filosofia.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

A tirania como uma doença da liberdade

No dia primeiro de junho de 2013, proferimos uma pequena palestra no auditório do IERGS, em Porto Alegre, sobre o documentário Eu me lembro, de Luiz Fernando Lobo dentro da mostra nacional Cinema pela Verdade.

O filme mostra o trauma de vítimas da ditadura brasileira iniciada em 1964 e a busca das famílias por justiça.

Nossa parte foi lançar uma reflexão sobre o nascimento da tirania dentro da própria democracia.

Dias depois o Brasil se levantou em protestos populares ainda em andamento, iniciados pela insatisfação com o aumento da passagem de ônibus urbanos onde Porto Alegre foi protagonista.

Abaixo, o texto.

A ditadura como uma doença da liberdade política

"As ditaduras não suportam a liberdade de expressão." Sentença de Paulo Abrão, presidente da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, na audiência pública de reparação de Glauber Rocha.

Gostaria de pedir atenção para esta manifestação, pois ela se encontra no cerne da questão da ditadura. Tudo o que ocorreu do ponto de vista legal e ilegal foi uma tentativa de sufocar a liberdade política de uns para garanti-la a outros.

Ou seja, se não há liberdade política para todos, há para alguns.

Vamos estabelecer aqui a ideia de que se medirmos a liberdade em grau, seu excesso e sua falta são patologias onde a escassez é gerada pela abundância. Assim, o totalitarismo é uma doença da liberdade provocada por ela mesma em excesso.

Explicaremos este processo iniciando com uma definição de liberdade política.

"Sou livre para agir quando nada nem ninguém me impede de fazê-lo." 

Segundo André Comte-Sponville, esta é a definição de liberdade politica comum a Hobbes, Locke e Voltaire, pelo menos. A liberdade é relativa ao grau de constrangimento. quer dizer que como prática politica, ela existe com mais ou menos limites a partir de como nossos valores são elementos constituidores de costumes, de normas éticas, códigos legais e regimes de governo, libertários ou dominadores.

Escolhemos como nos conduzir e nos construir como indivíduos e como sociedade num processo que está carregado de nós, de nosso ser.

Johann Gottlieb Fichte, dizia entre os séculos XVIII e XIX: "Que tipo de filosofia se escolhe depende do tipo de pessoa que se é". (STÖRIG, p 384).

O filósofo alemão nos remete à reflexão de que, se somos iguais em princípio para decidir o que fazer de nossas vidas desde que não firamos o direito dos outros ficando sujeitos à perda da liberdade, somos, por outro lado, condicionados por aquilo que é nossa cultura. Isto repercute na política partidária e cotidiana nos fazendo responsáveis pelos destinos individuais e coletivos na medida e que o amanhã será consequência do hoje, como o agora é resultado do antes. 

Se nós vivemos a democracia, onde há maior liberdade e equivalência de direitos, precisamos ainda pensar em nossas escolhas atuais para não fazermos delas pragas que apodreçam o sistema. 

Platão criticava a democracia e defendia a República como sistema político, regulado por leis justas e capazes de promover a paz e o bem-estar social em sua mais elevada concepção. Mas o governo deveria ser constituído por pessoas sábias. O governante-filósofo seria um elemento de uma casta educada e preparada para conduzir com sabedoria os destinos dos cidadãos, tendo por modelo um estado constituído à imagem da ideia perfeita de justiça. 

Para Platão, o governo do povo era uma degeneração onde a vontade dos mais sábios era substituída pela vontade da maioria, nem sempre certa, onde um povo decadente tende a fazer escolhas erradas. Sendo a democracia marcada pelo amplo exercício da liberdade, Platão aponta a licenciosa satisfação dos desejos acima do limite do que é justo como fator indutor da tirania. 

A tirania é uma doença da liberdade relacionada à injustiça

O tirano tem ligação com a classe popular e nasce sob o uso da própria liberdade em excesso. Chega ao poder para a falsa defesa da liberdade e da justiça coletivas e acaba defendendo as suas e de seu grupo. É o que Platão expõe no Livro XVIII e IX da República. 

Aqui fazemos um parêntese: 

Se por um lado a tomada do poder em 64 foi classificada como golpe pelos democratas depostos, pelos conservadores, foi chamada revolução para a proteção da democracia. Foi defendida pelos militares, legitimados por parte da população, em especial da classe burguesa, como uma necessidade para barrar a suposta ameaça tirânica comunista vinda do leste que, entre outras coisas, colocava em perigo o direito à liberdade política e econômica brasileira. Leia-se aqui a elite arrogando-se a maioria do povo e interferindo nos destinos da nação. 

O que queremos dizer é que em regimes políticos livres, onde há horizontalidade de direitos e ninguém é a priori mais forte a ponto de oprimir o mais fraco, as efervescências sociais originadas pela própria liberdade fazem parte da normalidade. Porém, não havendo instituições fortes e princípios republicanos seguros, o que ocorria em 64, a própria liberdade política oferece espaço para que um grupo surja com propostas salvacionistas. 



Com apoio popular e no controle da força e do Estado, este grupo pode se voltar contra a liberdade que o permitiu ser gerado, pela manutenção do poder, agora usurpado. 

A autoridade totalitária restringe a liberdade justamente para evitar a dissidência que possa destroná-la, assim como as democracias evitam a concentração de poder que possa desfazê-la. Ambos, totalitarismo e democracia precisam limitar a liberdade para que não morram. 

Aqui, chegamos a uma antinomia latente no exercício da liberdade política. Quanto mais uma sociedade dá liberdade aos seus membros, mais eles são ameaçados de perdê-la. Podemos pensar na tolerância exagerada que há no país em diferentes questões e ver perceber o quanto o abuso do poder limita direitos dos cidadãos ou os oprime a ponto de não ser incomum ouvir este absurdo "Ah, se fosse no tempo da ditadura" como solução para desordens.
Nestes cenários, estas sociedades correm o risco de precisar de medidas enérgicas e coercitivas para barrar a desordem provocada pelo excesso de tolerância às liberdades abusivas. E isto pode abrir brechas por onde o pensamento totalitário entra mascarado de restaurador da ordem. 

Platão diz no fragmento 563 a-e da República: "nascendo, aqui também da liberdade de fazer tudo, torna-se mais amplo e mais forte, até reduzir a democracia à escravatura."

Temos, então, o excesso de liberdade como patologia da própria liberdade que degenera em totalitarismo. 

Concluímos que necessitamos ser livres, mas com disciplina. O que fazer? 

Jean-Jacques Rousseau diz no início do capítulo I do Contrato Social: "O homem nasce livre e por toda parte encontra-se a ferros."

Os homens são escravos uns dos outros quando decidem por sociedades regidas por leis e costumes que contrariam a vontade geral. Rousseau faz esta distinção entre vontade da maioria e vontade geral, que é resultado de consenso universal e não representável por nenhum governante. Vontade geral é a constituição que Rousseau chama de Soberano. Ela é o espelho mais fiel dos desejos de toda a sociedade e deve ser o guia de todas as ações políticas. Só deste modo o povo será livre, pois sua liberdade estará estabelecida em parâmetros comuns, emanados pelo próprio povo

No Livro V do Emílio Rousseau vai afirmar: "A liberdade não está em nenhuma forma de governo. ela está no coração do homem livre."

É do coração, do conjunto de sentimentos e vontades que emana o Soberano. Neste contexto, os governantes são apenas cumpridores da vontade geral. 

Vejamos: se uma sociedade decide que a educação e a saúde serão gratuitas, de qualidade e suficientes para todos, por que não é cumprido? Porque não é o Soberano quem governa, e sim os desejos dos governantes! Nas ditaduras, não temos nem mesmo uma constituição popular parecida com o Soberano.

Estas ideias apontam que os valores da liberdade polícia e da justiça precisam estar consolidados do cidadão às instituições para que os embates da sociedade sejam absorvidos sem maiores traumas. Se não for assim, os conflitos de interesses podem resultar em rupturas graves como uma revolução ou um golpe escravizador, como diz Platão. 

No momento atual do Brasil, estamos livres de uma convulsão que tenda ao uso de instrumentos legais e políticos de exceção?

Não! 


Devido aos desarranjos sociais que enfrentamos! 




Temos exemplos de revoltas e golpes recentes da direita e da esquerda que não chegam a ser ditaduras, permanecem democracias constitucionais, mas com restrições de direitos e liberdades. E isto é perigoso, como foi em 64.





Para encerrar, Sartre afirma que o homem está condenado à liberdade por ser uma consciência. É no sujeito, não limitado por seu ser, e para ele, que o mundo faz sentido. Somos nós que reconhecemos a importância de viver entre o direito e o dever que nos mantenham politicamente livres. No nosso caso, numa democracia. 
E nossa consciência, que se reforça com a educação, a informação, a reflexão, nos orienta a tomar decisões nesta direção. Escolhas que falam de nós, como afirma Fichte. 

Estas decisões têm impactos na sociedade que segurá sendo construída mais ou menos livre, mais ou menos justa, se assim nós quisermos


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STÖRIG, Hans Joachim. História geral da filosofia. Petrópolis: Vozes, 2009.



domingo, 12 de maio de 2013

Super Kant!

Como romper com um certo modo coletivo de pensar, se este modo se percebe, está inadequado, e substituí-lo por outro, que pareça melhor?

Filosofar é também perguntar!

Esta questão foi levantada na última aula pelo colega André Luis Teixeira de Mello. No encontro estava sendo estuda a Educação Inclusiva, que tem por proposta incluir pessoas com deficiência na educação regular e formá-las cidadãs tanto quanto possível. Isto significa torná-las independentes, capazes de cuidarem de si e de seus direitos.

O ponto não é debater a inclusão pela educação.

Vamos já partir do patamar de que a inclusão é correta.

Na prática, portanto, a dificuldade é fazer a teoria funcionar, superar preconceitos e outras barreiras significativas e com isso horizontalizar as relações entre o maior grupo de pessoas possível, reconhecendo diferenças, porém respeitando a singularidade, descobrindo e estimulando talentos que permitam que deficientes participem mais ativamente da sociedade.

Contudo, isto não quer dizer que os deficientes devam ser moldados ao padrão cultural, político e econômico vigente, apenas. O esforço deve ser em duas mãos que se encontram. A sociedade também precisa enxergar estas pessoas com olhos acolhedores e transforma-se para estabelecer um convívio equilibrado.

Tudo o que já foi conquistado em termos de acessibilidade demonstra que estamos no caminho.

Mas o que a pergunta do André tem a ver com este processo?

Estudante de Sociologia, o André gostaria de ter uma resposta com fundamentação filosófica.

Vamos buscar a ajuda de um superman ou melhor, de um übermench da filosofia alemã.


Não, não é Nietzsche.




É Kant!






Ele elaborou um dos grandes sistemas filosóficos do idealismo racionalista. É fácil gostar de Kant e irresistível sua argumentação, que é também densa.

Vamos procurar um modo claro e simples de explicar.

Para o filósofo, a realidade é regida pelo princípio de causa e consequência, como um grande mecanismo lógico. A causa eficiente e primeira é não causada por nenhuma outra. É o Ser Sublime e Transcendental, ou seja, não faz parte do mundo natural. Este Sublime, que pode ser chamado Deus, é alcançado pelo senso estético e moral do homem.

"O argumento do desígnio não é um prova teórica, mas uma sugestão moral, que se faz vívida em nossos sentimentos em relação à natureza, e se realiza em nossos atos racionais. Realiza-se no sentido de que o verdadeiro fim da criação é sugerido de nossas ações morais: mas é a sugestão de um mundo ideal, não de um mundo existente. Assim provamos a teleologia divina em todas as nossas ações morais sem podermos mostrar que essa teleologia é verdadeira em relação ao mundo em que agimos." ( SCRUTON, p. 133)

Para Kant, a razão é o meio, mas ela não é capaz de alcançar o Transcendental. Temos sua ideia, idealizamos a finalidade dos fatos chegando à compreensão das forças mais radicais a comandar a realidade, mas não temos como demostrá-las plenamente na instância concreta como objeto do conhecimento.

"O que há a se reverenciar no ser racional é tão somente isto: ele sente e age como membro de uma esfera transcendental, ao mesmo tempo em que reconhece que pode conhecer apenas o mundo da natureza." (SCRUTON, p. 134) 

Este princípio age na História conduzindo a Humanidade para estágios superiores de conhecimento, de costumes. Cabe ao Homem entregar-se à atividade de sua razão para chegar ao entendimento do seu dever perante si e o outro e assim contribuir para que esta marcha se dê em boas condições, porque ela ocorrerá.

Aqui está um ponto essencial: são nossas próprias ações que aceleram ou retardam o bem-estar. É   necessário ser educado, educar. Escolher melhorar o mundo. Porque, segundo Kant, a progressão é positiva e virá assim mesmo.

"Pode-se considerar a história da espécie humana, em seu conjunto, como a realização de um plano oculto da natureza para estabelecer uma constituição política perfeita interiormente e, quanto a este fim, também exteriormente perfeita, como o único estado no qual a natureza pode desenvolver plenamente, na humanidade, todas as suas disposições." (KANT, p. 20) 

Evoluímos!

Então, olhando para a História, observamos as comoções e os avanços, nem sempre percebidos no momento, mas saudados depois.

A educação inclusiva, amparada em direitos humanos universais, se impõe justamente por este fundamento como avanço nas relações entre pessoas com fins na dignidade e na liberdade.

É evolução, Super Kant!
Já diria Gelson Weschenfelder.

fontes: SCRUTON, Roger. Kant. Porto Alegre: LP&M, 2011.
KANT, Immanuel. Ideia de uma história universal de um ponto de vista cosmopolita. São Paulo: Brasiliense, 1986. 
imagens: comicvine, fredericdupin, abril

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Questões de estudo 2

A unidade 2 do Caderno de Estudos de Filosofia Geral e da Educação traz a introdução a algumas áreas relacionadas à Filosofia.

São a sequência para explorar os temas e a abrir perspectivas maiores da análise filosófica.
Aqui vão algumas sugestões para acrescentar ao estudo.
O tópico 1 trata da Teoria do Conhecimento. Ao falar sobre o que é conhecer é preciso mergulhar na metafísica e perpassar a história do pensamento, já que em todas as épocas, filósofos se dedicaram a investigar o que seja conhecer e como é possível. Este tema será tratado como mais profundidade na disciplina específica.
Neste momento, é importante ir se familiarizando com o assunto. Uma das obras fundamentais dedicadas à epistemologia é o livro Teeteto, de Platão, considerado por alguns o inaugural sobre o tema e atual nas reflexões que traz.
“Ora, seria o cúmulo da simplicidade, estando nós à procura do conhecimento, vir alguém dizer-nos que é a opinião certa aliada ao conhecimento, seja da diferença ou do que for. Desse modo, Teeteto, conhecimento não pode ser nem a sensação, nem opinião verdadeira, nem a explicação racional acrescentada a essa opinião verdadeira.” (PLATÃO, p. 98)
Nas palavras de Sócrates, podemos afirmar que conhecemos, porém não respondemos com satisfação como se dá o ato de conhecer.
A fenomenologia, por exemplo, vai tratar o homem como sujeito consciente de si e do mundo dos entes, condição que o eleva a ser luz entre as coisas e ter por essência existir e reconhecer sua própria existência e das coisas do mundo. O espírito humano percebe o que se enquadra, a seu modo, naquilo que é conhecimento.
“Pusemos a questão sobre o que é conhecer. A resposta é possível porque estou presente ao cognoscente que sou. Minha existência é consciência-de-conhecer, sem ser de conhecimento. [...] Essa resposta, portanto, jamais pode ser provada, no sentido estrito da palavra, como p. ex., deduzo, raciocino, provo de um círculo ou esferas as propriedades necessárias. No explicitar não há provas: apenas posso apontar. Só consigo esforçar-me por apreender e exprimir aquilo a que estou presente.” (LUIJPEN, p. 90)
Contudo, não se pode pretender trabalhar com metafísica e teoria do conhecimento sem se apropriar do pensamento de Immanuel Kant.
Mas isto é para mais adiante.
Na página 68 há uma relação de identidade entre conhecimento mítico e religioso como fundamentados na fé como critério de verdade. É preciso fazer uma distinção.
O conhecimento demonstrável de modo racional é lógico. Há religiões amparadas em verdades filosóficas profundas, não sendo produto da fé se esta significar o inconcebível lógico. Deus, por exemplo, é uma ideia para a filosofia e para a teologia. Ele só não é empiricamente demonstrável como é um objeto do mundo real e concreto.
Mesmo a ciência positiva se ampara em certa espécie de fé. Confia na maior probabilidade de certeza de seus enunciados por confiar na certeza de seus métodos.
“Não existe, por conseguinte, um mundo-em-si científico. Em princípio, há tantos mundos científicos especialmente distintos, quantas são as atitudes especificamente diversas de perguntar.“ (LUIJPEN, p. 170)
Por isto, diversas ciências e não somente uma. Como diz Heidegger, a ciência é uma teoria sobre o real. Baseia-se no rigor da razão e reivindica a pretensão de falar a verdade sobre o ser concreto. Porém, submete-se ainda à Filosofia da Ciência, cujo papel é manter a crítica sobre aquilo que se afirma ser a verdade a respeito da realidade. A ciência não é totalizante, já que não explica tudo à luz de seu método. Não consegue, por exemplo, responder se o conhecimento parte do sujeito ou do objeto. Descreve leis mecânicas, mas não sabe responder como foram elaboradas de fato.
Na mesma página, onde se fala em conhecimento filosófico, afirma-se que a filosofia não pretende estabelecer um conhecimento absoluto, mas questionar e refletir. Não seria bem assim. Há sistemas filosóficos que pretendem chegar a verdades imutáveis e, portanto, absolutas. O cartesiano é um exemplo. A dúvida metódica arrasa o conhecimento inconsistente para propor um verdadeiro e metafísico. Descartes anuncia a realidade inquestionável do ser que pensa de modo absoluto. A própria lógica, como a matemática, possui verdades absolutas e com elas a filosofia propõe conhecimentos inquestionáveis pela razão. Alguns carecem é de demonstração na instância do real empírico, como a existência de Deus.
Ou alguém tem dúvida de que para os platônicos os seres ideais são absolutos?
Lógica
O tópico 2 traz noções bastante elementares sobre lógica. Opta por não ingressar na linguagem artificial ou apresentar a gramática lógica. Isto provavelmente virá com profundidade na disciplina de lógica.
Para se ter uma ideia do que será necessário aprender, os fundamentos passam por definição de sentença e argumento, legitimidade, ilegitimidade e analiticidade, proposição, possibilidade, etc.
Por exemplo, uma sentença é analítica quando jamais pode ser falseada.
Argumentos que trazem sentenças condicionais possuem legitimidade a analiticidade se o condicional correspondente for analítico:
“Se todos os homens são mortais e todos os gregos são homens, então todos os gregos são mortais.”  
Em lógica fica: Se todo A é B e todo C é A, então todo C é B.   
Grego? Nem tanto, vai...
Ética
O capítulo é resumido a algumas perspectivas éticas e distingue ética de moral.
É o começo.
Em toda a história da filosofia os pensadores falam mais ou menos sobre ética. Logo, é muito mais do que o exposto no livro. Uma boa viagem nesta história está no livro Ética, conceitos-chave em filosofia, de Dwight Furrow. Uma obra bem didática editada pela Artmed.
Porém, uma recomendação é se aproximar das origens gregas. Além da obra Ética a Nicômaco,de Aristóteles já recomendada, outro livro interessante é o diálogo Mênon, de Platão. Neste livro o filósofo destrincha a questão da Virtude e se ela pode ou não ser ensinada. Outro diálogo é o Filebo, sobre o prazer, a felicidade e o Bem, temas recorrentes na literatura platônica.

Conhecer o pensamento estóico é também de fundamental importância.


A concepção kantiana de moral e ética é magnífica, mas exige conhecimentos prévios para entender o sistema do filósofo e o que ele diz sobre liberdade e dever na perspectiva transcendental. Assim como a estética por Kant, que já mencionamos no post Que bonito!
Na sequência, o terceiro capítulo.
Bons estudos!
REFERÊNCIAS

LUIJPEN, William. Introdução à fenomenologia existencial. São Paulo: EPU/USP, 1973.
PLATÃO. Teeteto. Belém: UFPA, 1988.

imagens: cassao, portugues.free.ebooks, Filosofósforos

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Questões de estudo

Filosofia!

Em breve, um passo a mais em direção ao saber, acadêmico.
Você, que vai ingressar em algumas áreas do conhecimento filosófico a partir da disciplina Filosofia Geral e da Educação do Centro Universitário Leonardo da Vinci, terá no caderno de estudos alguns caminhos a serem investigados. Para acrescentar nesta formação, trazemos algumas propostas com a intenção de contribuir de maneira crítica.

Vamos lá?!

Ágora

O tópico 1 da primeira unidade relaciona a internet à ágora. O meio virtual é apresentado como a ampla praça pública onde todos podem se reunir para refletir e emitir opiniões. A antiga pólis é reinventada e a Filosofia recebe este espaço democrático para ser manifesta.

Mas fique atento: a ágora primordial não é a praça, a tribuna ou a internet.
Vamos iniciar com uma reflexão.

A Filosofia existe na Linguagem.
Nesta, mora o Ser.

Não há meio, real ou virtual que sirva ao pensamento se este não puder ser expresso. E a expressão está na linguagem que revela o mundo e seus fatos, seus fenômenos, tornando a realidade uma apropriação da consciência que assim, também se apropria de si mesma.

“Pensar sem linguagem é impossível [...]” (LUIJPEN, p. 21)


“Ainda que tivéssemos mil olhos e mil ouvidos, mil mãos e mil outros órgãos, se, porém, a nossa essencialização não consistisse no poder da linguagem, permanecer-nos-ia fechado e vendado todo ente: o ente que nós mesmos somos, não menos do que o ente que nós mesmos não somos.” (HEIDEGGER, apud BUZZI, p.109)




“A linguagem dá às sensações e intuições uma segunda existência mais alta do que a imediata, uma existência universal, que tem vigor no domínio da representação.” (HEGEL, apud BUZZI p. 234)

A ágora essencial é a Linguagem.

Nela se expressa saber ou ignorância, elevação ou baixeza. Nela o Ser passa a existir por ganhar sentido.
Isto quer dizer que mesmo que haja o espaço para o debate, o diálogo só terá qualidade se houver boas ideias e uma boa expressão delas.

Não se aprende filosofia, se aprende a filosofar.

Na página 11 do tópico 2, afirma o caderno que pensamos a partir dos conceitos. O pensamento é representação, uma duplicação do real objetivo no sujeito ou criações abstratas ideais como a matemática. O conceito, portanto, é matéria pensada. Por exemplo, ao ver uma garrafa, temos o objeto. De sensação na mente ou intuição, resulta a abstração e a imagem desta garrafa. Ela passa a ser um conteúdo da mente. Porém, torna-se conceito quando se elabora uma descrição do que seja uma garrafa. Temos assim o objeto, o signo – noção do que seja uma garrafa a partir da experiência com o objeto – e o significado de garrafa, seu conceito. O homem pode experimentar a liberdade, mas só é capaz de reconhecê-la quando consegue entendê-la, quando alcança a significação além da experiência.

O conceito não é a coisa-em-si, mas a coisa-para-si. Não é o ser concreto empírico; é o que se pode perceber dele, o que se pode descrever sobre ele, teorizar sobre ele.

Na mesma página, o texto proposto pelo caderno, de Deleuze e Guattari, diz não haver um céu para os conceitos. É uma posição contrária à platônica, onde as formas absolutas e perfeitas, portanto conceitos insofismáveis e plenos de verdade, existem inalteráveis e ao alcance da Razão. Os conceitos, segundo o texto, se originam da experiência da consciência frente ao real e da reflexão. Um perspectiva empírica e racionalista.

Consciência

Na página 21 o caderno menciona a formação da consciência crítica como uma função primordial da filosofia na sociedade atual.

Não apenas na sociedade atual, acadêmico.

Lembre que a Filosofia nasce do confronto entre a busca pela verdade e a tradição mítica. A Filosofia é crítica em essência. Ela pode ser tomada como a própria iluminação da consciência e com isso, do Ser. O Homem desperta para si mesmo e para o mundo ao seu redor ao travar o diálogo com o real para estabelecer suas causas e consequências em qualquer tempo.

Consciência religiosa

Ao citar Agostinho, na página 23, o caderno pretende fundamentar o primado da fé.

No entanto, faz uma afirmação temerária.

O compreender para crer e crer para compreender, segundo o livro, atesta que a fé não depende do intelecto em Agostinho. Esta posição é questionável tomando a própria asserção agostiniana. Ou seja, se é necessário compreender para crer, é preciso o intelecto, já que a fé de Agostinho não é fanática, nem alienada. O crer para compreender significa que sem a a Filosofia não faz sentido, pois ela se torna, segundo o Bispo de Hipona, vazia de significado prático.

Agostinho é um teólogo e filósofo profundo e trouxe para seu pensamento cristão elementos da filosofia grega, principalmente platônicos e neoplatônicos. Admite a existência de Deus a partir da realidade do eu pensante. Assim, Agostinho propõe a dialética ascendente do conhecimento, parte do sensível ao inteligível verdadeiro e absoluto, divino; parte do exterior ao interior. Chega a esta conclusão por lógica, não por admissão irracional. É o intelecto participando do esclarecimento da fé.

“A poucos homens é dado alcançar a sabedoria pura com o olhar da inteligência, e mesmo quando a alcançam, não conseguem demorar-se na sua contemplação por muito tempo, pois ela os cegaria com seu esplendor. É com a ajuda da ciência que este ato místico se torna possível. (BOEHNER, GILSON p. 171)

Na mesma página, o caderno diz que o mito é mais fantasioso do que a religião. Não é necessariamente assim. Quanto ao cristianismo, pode ser. Mas há inúmeras religiões ligadas às culturas primordiais, relacionadas pela antropologia, que estão longe de terem doutrinas racionalmente sistematizadas.

Sofistas

A nota em destaque na página 32 diz que os sofistas eram filósofos.

É preciso uma distinção.

A filosofia surgiu como reação contra o saber mítico e estanque da tradição grega que pretendia explicar a totalidade por meio da cultura ancestral apresentada principalmente pela visão cosmogônica. Os sábios, ou sophos, eram aqueles que ensinavam o útil à atividade política, central na pólis. Protágoras e Górgias, por exemplo, eram epistemologicamente céticos em relação à ontologia. Seu pensamento antropocêntrico é que foi importante, colocando a cultura no núcleo epistemológico no lugar da physis. O termo filósofo, forjado por Heráclito ou Pitágoras, distinguia o amigo do saber, aquele que não é o sábio, mas procura pela sabedoria. Pode ser tomado como uma ironia provocativa.

Sofista é o que sabe, o mestre da retórica, criticado por formar cidadãos atenienses e de outras cidades na arte do debate com finalidade política e propagar o relativismo epistemológico e moral. Desinteressado da busca pela verdade por meio do exercício crítico, o sofista é sofista. Considerá-lo filósofo é uma questão controversa, apesar deles defenderem o ceticismo filosófico. O filósofo é aquele que combate o suposto saber com a dúvida e propõe o uso da razão com o interesse único de descobrir e verdade, ou seja, um discurso consistente e com menor potencial de falseamento da realidade. No Teeteto, por exemplo, Sócrates derruba a tese de Protágoras, um sofista, sobre o conhecimento.

“[...] o sofista é alguém que busca menos a verdade do que o poder, o sucesso ou o dinheiro. Foi contra eles que Sócrates inventou, ou reinventou a filosofia.” (COMTE-SPONVILLE, p. 563)

Outro detalhe está na página 33. A citação de COLTRO diz que Sócrates rompeu com explicações mitológicas e/ou metafísicas. Somente as inconsistentes do ponto de vista platônico, pois a filosofia não abdica da metafísica. Platão e Sócrates defendiam o idealismo, uma proposta metafísica (o termo chega com Aristóteles) onde a verdade ontológica está no plano ideal e incorruptível.

Amor

Temos, na página 36, uma parte sobre o amor platônico. No Banquete, o discurso de Sócrates fala sobre a origem do Amor e cita Eros, o deus relacionado a este sentimento. A conclusão é de que o amor verdadeiro, o chamado Amor Platônico, é a contemplação do Belo, a capacidade humana de perceber a manifestação do Absoluto no relativo, de identificar a realidade da dimensão da perfeição como fonte da totalidade do ser. Ao fim do discurso diz Sócrates:

Portanto, caro Fedro, recebe este discurso como um elogio ao Eros! Ou, então, dá-lhe o nome que melhor te parecer.” (PLATÃO, p. 117)


A noite do Banquete era para elogiar Eros. Sócrates o faz. No entanto, distancia-se do deus como modelo ou representação ideal do amor. Para Platão, o amor é um esplendor da razão, não um sentimento! Sentimentos são inferiores para os gregos! O encerramento de Sócrates pode ser tomado por uma ironia: chame de Eros ou o que quiser, mas o Amor verdadeiro é a contemplação da Verdade. Desta maneira, a interpretação de que Eros é a força que impulsiona ao Bem, é andar num terreno movediço. 


O amor é, de fato em Platão, devoção à verdade e sua busca racional, não ao deus. No Fedro, o discípulo de Sócrates vai desenvolver ainda mais a questão.

Observando a página 39, o caderno cita A República e diz que a proposta platônica permite o alcance da felicidade plena na pólis idealizada. A felicidade plena parece contraditória com a essência do platonismo. O pleno é o absoluto, o perfeito, sem grau de carência. Isto não se dá no mundo do devir! A satisfação da alma está junto aos deuses por recompensa das virtudes praticadas em vida. Platão elabora a tese no Fedon, onde relata as últimas horas de Sócrates. O que a República pretende é demonstrar a constituição de um Estado com justiça e verdade e como consequência desta constituição, uma sociedade pacífica, próspera e equilibrada, modelo para outras por ser filosoficamente planejada.

Libertação

Para finalizar, sobre o processo de libertação em Paulo Freire, apontado na página 53, sugerimos assistir ao extraordinário documentário O Milagre de Mandela, produzido e exibido pelo History Channel (clique no link para ver). A condução política para o fim do Apartheid na África do Sul se encaixa na dinâmica da conscientização oprimido/opressor e resulta num dos mais importantes fatos políticos do século XX.

Utilidade

Estas são algumas questões acrescidas nesta primeira etapa dos estudos no caderno. Mas todo ele deve ser lido com atenção, pois os próprios autores o apresentam como guia, jamais como referência final dos estudos. Muito pelo contrário, as investigações filosóficas exigem ampla leitura, conhecimento aprofundado da história do pensamento e senso crítico permanente. As obras citadas são referências que merecem ser investigadas.

Esperamos que as colocações tenham sido úteis. Nos próximos dias, traremos mais sobre a sequência do caderno. Em aula, novos detalhes serão esclarecidos, ajudando na compreensão e abrindo novas interpretações.

No início da disciplina, passaremos pela turma para uma conversa.

Até lá!

Referências 

PLATÃO. Banquete. Rio de Janeiro: Ediouro, 199_
COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário Filosófico. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2011.
BOEHNER, Philotheus. GILSON, Etienne. História da Filosofia Cristã. Petrópolis: Editora Vozes, 1991.
BUZZI, Arcângelo. Introdução ao Pensar: o Ser, o Conhecimento, a Linguagem. Petrópolis: Editora Vozes, 1989.
LUIJPEN, William. Introdução à Fenomenologia Existencial. São Paulo: Editora USP, 1973.  


link: youtube/History Channel, infoescola
imagens: filosofósforos, maimagazine.net, badische-zeitung.de, blog.cancaonova.com, reidaverdade.com

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Que bonito!

É possível arte sem beleza?

Muitas pessoas vão defender que o belo é o que agrada a cada um e, portanto, não há uma Beleza universal.

Você concorda?

Segundo Kant, não é bem assim. Para o filósofo alemão, a Beleza é aquilo que agrada de maneira universal e livre. A percepção do Belo não deve estar condicionada por desejos ou interesses. É um deslumbramento puro do espírito. Como a moral, a beleza é transcendental. Não existe em si mesma de forma objetiva ou absoluta. Não se vê a Beleza andando por aí. O que se encontra é a beleza nas coisas provocando o prazer estético. Sentir o Belo é uma experiência subjetiva frente a algo objetivo que contenha características harmônicas tais que inspirem na consciência o reconhecimento da Beleza. É como um "dever" da razão captá-la.



"O juízo estético contém um "dever": os ouros devem sentir como eu sinto e, se isso não ocorre, ou eles estão errados ou eu estou errado." (SCRUTON, p. 123)

Então?
Categórico demais?
Espere. Não rejeite já a afirmação. Em seguida vamos fazer um teste.

Falando ontem em São Paulo, o Nobel de Literatura, o peruano Mario Vargas Llosa, de 77 anos, criticou a cultura atual. Para ele o rótulo de cultural foi banalizado e, ao incluir qualquer manifestação, perdeu significado e representa nada pretendendo representar tudo.

O caldeirão de expressões contemporâneas fervilha de manifestações variadas que pretensamente são chamadas de cultura e arte. Porém, muitas não passam de experimentos esteticamente e culturalmente vazios e efêmeros, refletindo o espírito pós-moderno exagerada consumação de tudo. Para Llosa, a decadência faz o homem retroceder à barbárie, de onde saiu pelo refinamento de sua alma, pela cultura de alto nível.

O Belo existe como uma entidade ideal, sinônimo de perfeição, numa dimensão espiritual alcançada pela dialética racional como afirma Platão?
É uma qualidade das coisas e nas coisas, no sentido aristotélico?





Olhe bem essa reprodução da obra de Caravaggio.

Veja os detalhes, a profundidade, a luz, o movimento.



Agora reflita:




Há no objeto características que o fazem belo? 
São características universais capazes de sensibilizar qualquer pessoa, elementos que se impõem ao sujeito que os aceita como um dever de reconhecimento à beleza, como propõe Kant?
Ou com o perdão do paradoxo, o Belo é absolutamente relativo?  


fontes: SCRUTON, Roger. Kant. Porto Alegre: Editora LP&M, 2011. 
Folha de São Paulo
imagens: FolhaSP, ozeas.blogspot.com, patriciadedeus.com.br, caravaggio-foudation.org, luzecalor.blogspot.com




segunda-feira, 1 de abril de 2013

Filosofia no ônibus

O aumento na passagem de ônibus em Porto Alegre vem gerando protestos e discussões há dias.

No dia 25 de março a tarifa, que era de R$ 2,85, subiu para R$ 3,05. O governo e as empresas apresentam seus cálculos e com eles as razões para a elevação, mas parte da população usuária discorda e acha a passagem cara demais.




Um novo protesto ocorreu hoje, 5 dias depois de uma manifestação onde houve depredação de patrimônio público e agressão ao secretário municipal de Coordenação Política e Governança Local, Cézar Busatto.





Hoje também começou a circular pelo Facebook, onde há muita manifestação contra o aumento e inclusive vem servindo para coordenar os protestos, um documento que seria do Ministério Público de Contas do Estado do Rio Grande do Sul orientando que a tarifa dos ônibus de Porto Alegre deveria ser R$ 2,60.


A revolta está na rua.


Mas o que isso tem a ver com Filosofia?


Tudo!




Poderíamos estender a análise do fato político tenso entre população e governo segundo a visão de diferentes filósofos em distintas épocas. Porém, vamos levantar a questão, inicialmente, sob o olhar de Jean-Jacques Rousseau.

No capítulo I do Livro I do Contrato Social, o filósofo afirma:

"O homem nasce livre, e por toda a parte encontra-se a ferros." 

Rousseau se refere às amarras, para ele, artificiais e prejudiciais criadas pelo próprio homem. São os grilhões que mantém as desigualdades sociais e as pessoas cativas em condições afastadas do bem-estar. Entre as instituições degradantes estão os governos que não agem em favor daquilo que é classificado como o interesse do povo ou a vontade geral.

Os protestos em Porto Alegre nascem da percepção da injustiça do ato do governo para com a população, que o faz amparado na burocracia e na lei.

Mas é correto, apesar de impopular?
Tudo o que é impopular é necessariamente errado?  

E do lado da população, justificam-se ações violentas como agredir e quebrar? 

Em todo o mundo, a revolta e o confronto se avolumam quando as pessoas se sentem traídas pelas instituições, por elas abandonadas e sem instrumentos institucionais contra a opressão. Evidente que nas convulsões, mesmo as menores, misturam-se interesses que contaminam causas mais nobres.

No capítulo XV do Livro III do Contrato, Rousseau diz:



"De qualquer modo, no momento em que um povo se dá representantes, não é mais livre, não existe mais."  


Rousseau é contra os vícios humanos presentes também nos governos. Ele não é contra a existência de um governo, mas este precisa ser legítimo.



Qual a proposta política de Rousseau apresentada no Contrato Social e que tanta influência teve na História? 

fonte: Terra
fotos: ZH, Facebook, Filosofósforos

quarta-feira, 20 de março de 2013

Na moral

A sociedade tem o relativismo como seu próprio credo.

Disse Bento XVI em fevereiro de 2011, quando ainda era Papa.
Segundo o pontífice, falar a verdade, ou aquilo que a Igreja considera verdadeiro, às vezes é perigoso.

O relativismo é a negação da possibilidade de uma doutrina ou conhecimento absoluto. Não há verdades absolutas que possam ser conhecidas pelo ser humano. No campo epistemológico e no ético. O que não significa que não haja valores. Pelo contrário, eles existem, só não estão fundados sobre bases irremovíveis nem se propõem a ser universais, imóveis ou perfeitos.

Mesmo que pareça paradoxal e absoluto afirmar que não há verdades absolutas, a sentença contém em essência a negação do absoluto, a essência do relativismo. Quando pronunciada, se autoanula ou seja, não é absoluto que não haja verdades absolutas. Estas podem até existir, mas não são admitidas pelos relativistas que não aceitam seus princípios.

Na vida prática, para o relativista, que não é niilista, pois ele tem valores, razões de ordem não dogmáticas, contrárias às derivadas de metafísicas com pretensão de explicar a origem verdadeira da realidade, orientam a conduta. Seria contraditório, portanto, um fiel católico relativista.

Não havendo então a possibilidade de verdades objetivas e absolutas, que valham para todos, restam verdades subjetivas, onde cada um ou cada grupo elege por verdadeiro o que melhor lhes parece.

Um problema e tanto quando o pensamento relativista se depara com estruturas já postas e que devem servir de parâmetros para a conduta e para o saber. Já no Teeteto, Platão dava um golpe fundo na opinião e no relativismo. Basicamente dizia que se dois sujeitos distintos possuem opiniões contrárias e simultâneas sobre o mesmo objeto e ambos estão com a verdade, ambos precisam admitir ao mesmo tempo que estão certos e errados. Digo que meu pensamento é verdadeiro e falso sob as mesmas condições (autoanulação da sentença "não há verdades absolutas"). É admitir a contradição, ser e não ser. Isto remete à mobilidade do Ser, como descrevia Heráclito ao afirmar que o ser muda o tempo todo, e deste modo não é possível afirmar nada, pois quando se diz "isto é", já não é mais. A consequência é um bloqueio lógico e com ele a incapacidade de pensar sensatamente e o consequente silêncio da razão.

Transportando para hoje, o relativismo ético, onde não há regras de conduta que sejam boas para todos, abre espaço para a pluralidade de subjetividades e comportamentos. São inúmeras as "tribos", as modas, as visões de mundo e da vida.


Todos a exigir respeito, que é de direito, e reivindicar para si a liberdade de expressão e opinião por estarem vivendo de modo autêntico e verdadeiro, segundo o que entendem como tal. Mas não é raro ver incoerênciaschoques entre diferentes pontos de vista quando eles são antagônicos demais. Alguns embates surgem quando um determinado princípio se sobressai no meio e ameaça se impor àqueles que discordam.

Neste sentido, percebe-se que em um nível mais prosaico, se exercita o relativismo sem problemas no dia a dia, dentro de limites.

Mas ele deve mesmo ser o credo da sociedade? 
O relativismo como doutrina é suficiente para ser o padrão de valores humanos?

Verdades absolutas realmente são uma ficção filosófica dispensável? 


Descartes, por exemplo, afirmava que a moral deve ser consequência da metafísica que ele propunha a partir da dúvida metódica. Há um Deus criador e mantenedor da realidade e há uma coisa que pensa e existe pensando, composta de corpo e que vive num mundo de incertezas que, ao serem analisadas pela razão, ou se tornam ideias claras e distintas, absolutas, ou são deixadas de lado por serem imprecisas e obscuras, com menor importância, até abandonadas por serem falsas.




Mas para conviver em paz, é preciso uma moral provisória que servirá até que se chegue a uma moral definitiva.

Que moral provisória é esta que Descartes sugere ser adotada?
Ela é relativista?

fontes: clmais/EFE, Comte-Sponville. Dicionário Filosófico, Abbagnano. Dicionário de Filosofia. Descartes. Discurso do Método
fotos: gutterseelper, listocomics

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Onde vais, Senhor?

O Ser é expresso pela linguagem.

Sem a linguagem não há comunicação e, a Verdade sendo atingida, deixa de ser experiência única para ser compartilhada pela linguagem. A Filosofia se dedica à estudá-la.

Entre as formas de linguagem, a verbal e a não verbal, caracterizada por expressões e sinais que indicam algo e possuem sentido. O Verbo divino feito homem vem à humanidade revelar-se por meio da linguagem.

A possibilidade de comunicar é essencial para o homem.
Sem ela não haveria conhecimento. Portanto, não haveria Filosofia.

Pregação

Esta geração testemunha um acontecimento histórico.

Em sete séculos, um Papa renuncia.

É a segunda vez na história que isto ocorre. Bento XVI se diz cansado e incapaz de conduzir a Igreja, envolta em enormes desafios. Para Ratzinger, sua renúncia será positiva para a instituição. Porém, a entrega da cátedra de Pedro envia uma mensagem dúbia aos católicos.

Pastor máximo do catolicismo, o Papa deve ser o primeiro a estar submisso à Vontade Divina. Ele, portanto, é mais do que o chefe da Igreja, ele é o exemplo central para os cristãos. Ou não?

Lembremos a história de São Pedro.


Temendo ser morto e com isso ver a comunidade cristã de Roma despedaçada, Pedro decidiu abandonar a capital do império e se refugiar no Oriente Médio. Salvava sua vida e preservava o trabalho de fé que vinha desenvolvendo. Poupava a si e à Igreja nascente. Numa manhã do Século I ele e um companheiro deixavam a cidade pela Via Appia quando Pedro viu uma figura luminosa. O apóstolo reconheceu ser seu Messias e comovido perguntou: "Quo vadis, Domine? Onde vais, Senhor?" Jesus respondeu: "Vou a Roma ser novamente crucificado, já que me abandonas." Pedro se arrependeu, voltou à capital e depois foi também crucificado.





Mito ou não, a história ilustra o momento.
Jesus também foi íntegro e coerente, não abdicando de seu destino.

O Papa tem direito a se afastar da função e descansar.

Mas como representante mundano de Cristo e sucessor de Pedro e do legado de todos os que deram a vida pelo cristianismo, não caberia a ele se submeter à missão de fé por amor à Deus e ao homem e conduzir a Igreja neste tempo de grandes mudanças onde é ainda mais necessária uma figura que traga segurança e serenidade aos fiéis?

Joseph Ratzinger parece entender que não, que ele não é mais esta pessoa.

Em breve haverá o conclave e especula-se que o próximo Papa seja mais carismático e comunicativo para contornar o momento turbulento e de encolhimento da Igreja. Bento XVI, com 85 anos, é o primeiro Papa a ter conta no twitter. Procurou utilizar da ferramenta midiática para se aproximar do povo, mas não a usou muito. Sua renúncia não foi postada no microblog. Mas uma mensagem do dia 10 deste mês sugere a incoerência entre pregação e ação.

Dobbiamo avere fiducia nella potenza della misericordia di Dio. Noi siamo tutti peccatori, ma la Sua grazia ci trasforma e ci rende nuovi.

"Devemos ter fé no poder da misericórdia de Deus. Nós somos todos pecadores, mas a Sua graça nos transforma e nos renova." 



O próximo Papa precisará dialogar bem internamente para acomodar dissidências na Santa Sé e externamente para expandir o catolicismo e renovar a imagem da religião.


Para quem não é católico, esta questão se torna irrelevante.



No entanto, religião e ética estão próximas e isto deve importar.

Então, que papel as religiões ocupam ou podem ainda ocupar na formação moral e ética das pessoas? 
A atitude de Bento XVI induz a se pensar em si em primeiro lugar ou como afirma a Igreja, é um gesto altruísta, pelo bem da instituição e seus adeptos?
Por que religiões caem em descrédito e são abandonadas?
A perda de fiéis tem relação com a comunicação das religiões? Em que sentindo? 
É possível conviver apenas sob valores morais e éticos leigos, sem a necessidade da religião ou a moral implica em reconhecimento de alguma forma de divindade? 

fontes: Folha de São Paulo, twitter, G1
fotos: elliottback, reporterdecristo, protestantismo.iedcg, G1

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Fé e Filosofia

A tragédia de Santa Maria vai ficar para sempre na memória de quem se emocionou com o episódio.


Dia 27 de janeiro de 2013.






Um dia de dor imensurável e perpétua para parentes e amigos dos mortos e feridos.


Para todos nós que impressionados pelo fato absurdo não nos conformamos.

Na segunda-feira, dia 28, expressamos nossa opinião sobre o ocorrido pelo Facebook escrevendo assim:

O Brasil é um país em condicional. Se houvesse coletes para todos na embarcação, não haveria tantos afogados. Se a empresa tivesse feito a manutenção do ônibus, os freios não teriam falhado. Se a transportadora tivesse respeitado o limite de carga, ela não teria tombado sobre o automóvel. Se não fosse a poupança burra de dinheiro público, a rodovia teria acostamento. Se houvesse saídas de emergência, se extintores funcionassem, se não houvesse excesso de pessoas, se existisse melhor comunicação entre os seguranças, se não fosse a insensatez de usar um sinalizador em local fechado, se houvesse fiscalização constante, planejamento, respeito às regras de segurança, menos ganância, 236 pessoas estariam vivas agora. Morrer, apesar de improvável, é fatalidade. Mas não foi um raio descontrolado que caiu. A tragédia gaúcha foi efeito de diversas causas estúpidas combinadas. Poderia ter sido evitada. Condicional. Mas ela é superlativa, maior do que o entendimento e por isso provoca perplexidade. Não permite sobre ela a vaidade de nenhum jornalista. Não permite competir por audiência. Não permite indignações teatrais. Não permite comoções falsas. Não permite explicações incompletas. Não permite irresponsabilidades. O Brasil é um país em condicional. Estamos todos, TODOS presos nesta mesma circunstância que perpetuamos com esta indolência maliciosa brasileira. Como o primeiro pecado mancha o homem, a tragédia de Santa Maria borra de triteza, culpa e vergonha a alma de cada um de nós que ainda respiramos deste mesmo ar.

Hoje já são 238 mortos.

A mídia nacional fala insistentemente. Até certo ponto é necessário para manter o assunto em pauta.

Mas só isso? 
Não há necessidade também de mercado e com isso a exploração do assunto? 
Como deixar de falar? 
Por onde abordar? 
Todas as abordagens atendem ao interesse público?



As investigações seguem, culpados serão apontados. Mas todos temos um pouco de resposabilidade porque relaxamos, porque somos licenciosos com a fraude, com a ineficiência, com as pequenas corrupções, que crescem.





O jornal britânico Financial Times publicou no dia 28/01 um artigo com o título "Idiotice e Progresso", fazendo severas críticas ao país e apontando o quanto a tragédia expôs a carência geral de preparo e estruturas. Citou ainda, de modo ácido, que é comum no Brasil jovens deixarem os bares sem pagar a conta, sugerindo que este desvio de comportamento, esta desonestidade teria induzido os seguranças a serem mais rígidos ao não permitir a saída da boate Kiss no momento inicial da correria fatal.

Muito precisamos corrigir sobre nós mesmos enquanto o ferimento cicatriza.

E a lenta e necessária catarse há de suavizar a sensação sufocante de finitude. Neste processo, a religião tem sido um dos elementos de amparo para suportar a brutal realidade e tentar entendê-la.


No sábado 02/02 foi celebrada uma missa de sétimo dia na Basílica Nossa Senhora de Medianeira, em Santa Maria. Segundo a polícia militar, 3 mil pessoas estiveram presentes.




Orações e outros comportamentos religiosos demostraram a fé da pessoas desde o início da crise.





A religião é convicção íntima e é também cultura.
Agrega comunidades num mesmo fim, consola, conforta aqueles que acreditam em Deus e no espírito imortal conforme suas doutrinas institucionalizadas ou interpretam a religiosidade à maneira privada.

O que é a fé religiosa e como ela se relaciona com a Filosofia?  
Filosofia e fé são sempre compatíveis?

fonte: G1, Financial Times
fotos: G1, ZH, uol, em.com, veja