Sua revista escolar de filosofia.

domingo, 24 de maio de 2015

Linguagem filosófica: filosofar é libertar seu pensar, comunicar e agir

Mas, para isto, precisamos aprender uma maneira adequada que permita conquistar esta AUTONOMIA, esta liberdade de SER conforme as próprias regras, ou com a sua PRÓPRIA RAZÃO.

Não é uma caminhada simples. Contudo, pode ter o sentido de RENOVAÇÃO da CURIOSIDADE a respeito da realidade.

Você acha que consegue?
Está pronto para tentar?

Não precisa ter medo, basta acreditar que você tem o essencial para realizar: o pensamento!

Vamos nessa, então!?

Eis um segredinho: filosofar é um DIZER que requer um modo singular de LER a REALIDADE.

Fazer uma leitura do discurso ao nosso redor, TEXTUAL ou não textual, que é tudo aquilo que não está expresso em PALAVRAS, mas manda sua mensagem para nós, como a arquitetura de uma cidade, o comportamento silencioso das pessoas, uma paisagem...

Decifrar a eloquência do fenômeno do SER e delimitar aquilo que se diz sobre o que EXISTE.

Veja o que dizem as orientações curriculares da nossa querida filosofia:


“A pergunta que se coloca é: qual a contribuição específica da Filosofia em relação ao exercício da cidadania para essa etapa da formação? A resposta a essa questão destaca o papel peculiar da filosofia no desenvolvimento da competência geral de fala, leitura e escrita – competência aqui compreendida de um modo bastante especial e ligada à natureza argumentativa da Filosofia e à sua tradição histórica. Cabe, então, especificamente à Filosofia a capacidade de análise, de reconstrução racional e de crítica, a partir da compreensão de que tomar posições diante de textos propostos de qualquer tipo (tanto textos filosóficos quanto textos não filosóficos e formações discursivas não explicitadas em textos) e emitir opiniões acerca deles é
um pressuposto indispensável para o exercício da cidadania.” MEC, 2008, p. 26

Ou seja, estudante: ao mesmo tempo em que vamos conhecer a filosofia em sua história, vamos aprender um pouco o MÉTODO e a TÉCNICA que os filósofos aplicam para filosofar. Assim, você também vai chegar lá se tiver boa vontade e alegria em DESCOBRIR.

Abaixo estão algumas informações importantes para você compreender e consultar quando for preciso para resolver dúvidas sobre o que apresentamos até aqui.

O SENTIDO FORMATIVO DA FILOSOFIA
Ricardo Nascimento Fabrinni -USP

[...] é preciso ressaltar que cabe ao professor colocar o aluno em contato com diferentes modalidades discursivas. “Qualquer que seja o programa escolhido – ética, estética, filosofia política – não se pode esquecer que a leitura filosófica retém o essencial da atividade filosófica” (Favaretto, 1995, p.80); ou ainda: “É preciso acentuar que uma leitura não é filosófica apenas porque os textos são tidos por filosóficos - ou porque seus autores são considerados autores da história da filosofia, de Platão a Sartre -, uma vez que se pode ler textos filosóficos sem filosofar e ler textos considerados artísticos, políticos, jornalísticos filosoficamente” (Lyotard, 1993, p.117). Em outros termos: o que faz da leitura de um texto uma atividade filosófica não é a natureza disciplinar do texto lido, mas o modo como o leitor lê este texto; ou seja, o essencial dessa atividade está no modus operandi do leitor face às diferentes formas de enunciação. A “leitura filosófica” não se esgota, assim, na simples aplicação de metodologias de leituras. “Ela é um ‘exercício de escuta’, num sentido análogo ao da psicanálise, pois se manifesta como uma “elaboração do texto que desdobra seus pressupostos e subentendidos” (Favaretto, 1995, p.81).

Outro segredinho: aprender filosofia aprendendo a filosofar requer três fases indispensáveis a serem desenvolvidas:

1 – aprender o CONCEITO, ou seja, aquilo que as palavras significam em filosofia: liberdade, justiça, amor, autonomia, etc. O que são? Cada conceito é a SÍNTESE, o resumo ou conclusão de um modo de pensar o PROBLEMA filosófico. O que é tal coisa? A resposta CONCEITUAL oferece uma explicação coerente, consistente, geral, universal a ponto de ESCLARECER o que seja a coisa em toda a qualquer ocasião. Exemplo: há vários casos envolvendo a justiça e eles podem ser diferentes em suas particularidades, mas, a JUSTIÇA enquanto conceito pretende ser UNIVERSAL E REVELAR O QUE ELA É EM QUALQUER SITUAÇÃO.

2 – aprender a PROBLEMATIZAR, ou seja, a propor questões, perguntas que tenham relevância filosófica. Significa olhar para a realidade e perceber nela LACUNAS que necessitam preenchimentos. Por exemplo: SE TODO O HOMEM É LIVRE, POR QUE NÃO POSSO FAZER TUDO O QUE DESEJO? Isto vai exigir que se explique o que é a LIBERDADE enquanto fenômeno real e elaboração conceitual. A resposta vai levar à terceira etapa.

3 – a terceira etapa é a ARGUMENTAÇÃO. Quer dizer que se vão criar respostas satisfatórias para defender um PONTO DE VISTA, um modo filosófico de pensar. Mas, não é qualquer resposta que possa ser invalidada facilmente. É sim uma RESPOSTA LOGICAMENTE CONSISTENTE, que tenha coerência tão aprofundada que possa servir de VERDADE PARA SUSTENTAR UM CONCEITO, ter validade. Exemplo: ao responder o que é a liberdade, se constrói argumentos apropriados para isto. 

Durante o ano, vamos recorrer a estas etapas sempre que precisarmos para ENTENDER a filosofia que estamos estudando e o FILOSOFAR que estamos fazendo.

Um abraço e bons estudos!!

imagens: internet/kdfrases

domingo, 10 de maio de 2015

Deus é o homem?

Deus é a imagem e semelhança do homem.

Ousada esta inversão do que diz a religião?

Pode-se ter nesta síntese simples uma referência ao pensamento do filósofo alemão Ludwig Feuerbach a respeito da religiosidade.

Materialista, Feuerbach defende que as ideias são concepções do homem enquanto ser real e concreto, e não que o homem e a realidade concreta sejam resultado da ação de uma ideia, opondo-se assim ao idealismo de seu mestre Hegel. Deste modo, a religião é uma projeção do próprio homem em representação divina.

Este tema é assunto do livro do meu amigo, o professor de Filosofia Paulo Airton Hartmann.

A obra intitulada Feuerbach e o Ateísmo Antropológico é resultado da dissertação de mestrado do professor Paulo e agora chega ao público interessado em refletir sobre a questão.

O próprio autor resume o trabalho apresentando-o:

"Feuerbach responde à pergunta: de onde e como surge a religião? O homem, dotado de inteligência e consciência, é capaz de pensar-se como indivíduo e como espécie. Como indivíduo, percebe-se limitado. Como espécie, descobre sua essência. Sua essência e todas as suas potencialidades e desejos ele as projeta para fora de si e as chama Deus. Feuerbach, com seu ateísmo, quer restituir ao homem a dignidade perdida e demonstrar que a teologia é, na verdade, uma antropologia. Por fim, faz-se a crítica da crítica de Feuerbach. 




O livro destina-se a ateus e crentes que, como verdadeiros filósofos, se dispõem a um questionamento sobre suas crenças."


Então, interessado?

Para adquirir o livro basta acessar o site www.morebooks.de e encomendar.

Sobre o autor, o professor Paulo Airton Hartmann é natural de Montenegro, no Rio Grande do Sul. É licenciado em Filosofia pela FAFIMC. Possui especialização em Ensino Religioso pelo CESUCA e é mestre em Ética e Filosofia Política pela PUCRS.

Como você entende Deus? 
É possível que Deus seja uma projeção das potencialidades humanas, sendo uma representação sem realidade ontológica? 
Se for assim, a realidade concreta é uma autocriação da matéria? 
Só o que existe de concreto é o existente possível e ao alcance da experiência sensorial? 
Ou há uma realidade ideal que foge aos sentidos, mas é percebida pela razão? 

Certamente estas e outras questões podem ser pensadas com mais propriedade a partir do que traz o livro do professor Paulo.

imagens: Facebook Paulo Airton Hartmann, theophiliacs

quarta-feira, 15 de abril de 2015

A força do destino

Você acredita no destino?

A resposta pode ser indiferente.

Pois, se o destino é força determinadora dos fatos ou não, crer nele não faz diferença. Ele atuará ou não igualmente. Seria preciso, então, encontrar argumentos consistentes o suficiente para comprovar que os acontecimentos da vida são presididos pela força do destino.

O fenômeno é uma referência. O real concreto é fato. Aquilo que ocorre no mundo acontece por necessidade. Encontrar conexões que formam o conjunto de circunstâncias causadoras dos efeitos do mundo seria uma ilusão humana que caracterizaria a resistência em aceitar que o fato é único, jamais múltiplo.

O que ocorre descarta todas as outras possibilidades.

E por que as coisas ocorrem?
Seria pela conjunção dos fatores?
Estes fatores seriam voluntários ou determinados?

Esta é a questão.

Aquilo que existe possui realidade maior do que aquilo que é especulado, imaginado, pensado, o que é abstrato, ideia, representação. Neste sentido, a força atrativa da realidade para a produção dos fenômenos é a própria força criadora ativa e concreta. Esta potência é presente


Só há este presente concreto transformando-se por suas próprias leis e, deste modo, a vontade não pode intervir na potência real e possui apenas a ilusão de controlar os atos quando o ser é sim guiado pela realidade que se impõe como verdade porque de fato existe. Por exemplo, as escolhas que se faz ao longo da vida são as escolhas possíveis para confirmar o que a realidade quer.




Isto perturba?

Pode ser que sim. Pois, tira do sujeito o liberdade de arbítrio e confirma o trágico como fim da existência. Por outro lado, configura a humildade do ser diante do poder real, que em alguns casos é proposto como sendo o próprio poder divino imanente. Esta ideia é parte do núcleo ontológico estoico e está presente em diferentes filosofias, como nas de Nietzsche ou Spinoza. 

"O destino guia aquele que consente e arrasta aquele que recusa" Sêneca

"Que é Deus? Tudo o que vês e tudo o que não vês. Idem

"Lembra-te, pois, que se tomares como livres coisas que são escravas por natureza, e por tuas as que são alheias, surgirão continuamente obstáculos após obstáculos e ficarás aflito, perturbado." Epicteto

"Sabes o que é teu? O uso que fazes da aparência das coisas." Idem

"[...] existe acaso um só néscio que viva sem sofrer, sem temer, sem cair, sem alcançar a meta? Nenhum. Não há, portanto, ninguém livre." Idem


O filósofo francês Clément Rosset trata da questão no livro O real e seu duplo

Diz, por exemplo, que a narrativa oracular guarda a ilusão de fuga do destino por conhecê-lo. Mas, ao fugir do destino, se faz com que ele se cumpra, como o mito de Édipo.




Não é estranho apesar de lógico?



Então, você aceita a ação do destino enquanto princípio real, tenha ele o nome que tiver?


imagens: dtcom, portalplanetasedna, fatamorgana, freethoughtalmanac, record
citações: Mondolfo, Rosset

terça-feira, 7 de abril de 2015

Conclusão: Em busca da Felicidade, um voo do pensamento

Ir às alturas requer esforço.
Porque, não tendo asas, voar, para o homem, é pensar

Pensar imaginando.
Pensar filosofando

O voo da razão com as asas da filosofia é imagem que simboliza chegar ao limite possível do entendimento. 

"Na verdade, tive que voar ao mais alto para tornar a encontrar a fonte da alegria." Nietzsche, Assim falou Zaratustra, Parte II. 



Ou como diz Hegel, o pássaro da Minerva, que representa a sabedoria, só alça voo quando cai a escuridão. Quando se chega ao fim da história para compreender o que ela significa. 



Nossa história, até aqui, foi buscar um sentido comum para o termo felicidade

Para isto, tivemos que exercitar as asas do pensamento na reflexão. 
Nos tornarmos críticos, analíticos a procura de uma síntese. 

Como foi apresentado no post anterior a este, percorremos duas linhas básicas do entendimento daquilo que seja a natureza humana na tentativa de compreender os motores da nossa ação para a geração daquele estado anímico que para nós significa sermos felizes. 

A proposta das aulas era percorrer o caminho rumo ao conceito de felicidade explorando as dimensões estéticas e éticas do homem, examinar propostas de alguns filósofos na definição do termo e, ao final, ousar definir a felicidade a partir do próprio jeito de entendê-la, com as próprias palavras, mesmo pegando emprestadas ideais já filosofadas. 



A rota do nosso voo foi sinalizada para evitar que alguém se perdesse na imensidão dos raciocínios, sem conseguir planar seguro. 


Estabelecemos como sinais que: 




- A felicidade deve ser um estado contínuo de um tipo excelente de prazer conforme a natureza humana. 

- Que o prazer dá sentido às ações. 

- Que o homem é composto de corpo e mente racional e emotiva e que isto reflete a estética e a ética. 

- Que a ética dá significado à estética, pois o intelecto explica os impulsos do corpo e propõe os limites do certo e do errado nas ações.

- Que a felicidade é o prazer obtido com ações que conservam e melhoram a vida física e que garantem a integridade moral, sem comprometer este mesmo exercício por parte das outras pessoas. 

Ao voo, ao trabalho

Aceito o desafio de se aventurar nas alturas filosóficas, os alunos da turma 306 da Escola de Ensino Médio Santa Rita de Cássia sempre se mostraram corajosos. Afinal, eles tiveram que trabalhar elementos novos e aprimorar juízos a respeito do assunto e sobre as próprias crenças para conseguir se desprender da terra, dos significados já construídos ao longo de suas experiências, e tentar este pequeno, mas relevante voo na filosofia. 

Distribuídos em grupos, os estudantes debateram o tema.

Argumentaram.
Problematizaram. 

Encontraram dificuldades com a abstração, este ar rarefeito do pensamento conceitual. 
Enfrentaram as barreiras da opinião uns dos outros. 

Sem maiores vertigens, seguiram determinados e, com alguma ajuda, conseguiram o equilíbrio para se manterem no eixo até desfrutarem das correntes de vento dos próprios pensamentos

E o que eles disseram? 




"Felicidade é algo obtido por nossas ações onde conseguimos pensar e saber agir de uma forma onde conseguimos estar bem com nós mesmos" 


Guilherme Dutra, Nadine Weiler, Tayna De La Vega. 





"Felicidade é realizar os sonhos, cumprir metas, alcançar os objetivos, mesmo que seja nas coisas simples da vida, mas, acima de tudo, conquistar isto sem atrapalhar a conquista do próximo." 


Hamanda Fausto, Célia Pimentel, Vanessa Moraes, Felipe Medeiros, João Paulo Gomes, Robson Cruz





"Felicidade é algo com definições múltiplas, não prevista, mas com manual de moral a seguir fazendo com que a felicidade seja algo contínuo, diferente do prazer." 

Norton Martins, Alessandro do Amaral, Dieyson dos Santos, Vinicius Oliveira, Marciele Vargas Bragança, Gabriel Vargas Bragança





Estar bem com a própria consciência no atendimento das ambições. 

"O essencial para nossa felicidade é a nossa condição íntima, de que somos donos." Epicuro

Satisfazer as necessidades de prazer do corpo e do intelecto buscando acrescentar nesta mistura o bem correspondente à natureza humana

E qual esta natureza? 

Eis o debate de fundo quando se discute a felicidade. 

Esta concepção vai nortear a busca pela felicidade. Culturas mais estéticas, materialistas, hedonistas, individualistas, narcisistas, egoístas ou então idealistas, racionalistas, espiritualistas, etc., vão propor modos correspondentes aos próprios valores, estes relacionados à causa e à finalidade da existência humana, para se viver uma vida feliz. 

A felicidade do monge se distingue, em princípio, da felicidade do executivo

Imerso na cultura, o sujeito precisa responder a si: quem sou? 
Ao se reconhecer, necessita ainda de algo: de autonomia para buscar sua felicidade. 

E isto se consegue com liberdade
Liberdade que se mantém como relação em comunidade. Para tê-la, é preciso dá-la. Na reciprocidade do cuidado para com a liberdade, cada um pode ser e fazer aquilo que felicita, no limite do convívio respeitoso e construtivo. 

Promessa é dívida

No início do módulo, o trato era que quando chegássemos ao encerramento da unidade, avaliaríamos as conceitualizações da turma e lançaríamos também uma minha, que se tornaria nossa, própria. Ela ficou assim: 


"Felicidade é a sensação produzida pela relação positiva e contínua com as coisas materiais e imateriais que dão a mim a alegria e a certeza de eu ser quem sou." 


Satisfeito? 

imagens: Charles Dalberto, danbrazil, wikipedia

terça-feira, 31 de março de 2015

Unidade didática: Em busca da Felicidade

A questão da felicidade significa a procura por ela. 

Questionando sobre o que é a felicidade podemos, quem sabe, encontrar um termo comum conceitual que nos permita saber do que estamos falando uns aos outros ao nos dizermos felizes. 

Será que é possível? 

Definir a felicidade tem sido uma das mais espinhosas tarefas da filosofia. 
Se trata de produzir o significado de um significante quando ambos são móveis

O valor semântico do termo felicidade parece ter extensão e intensão ilimitadas. As coisas que dão felicidade e o que significa a sua intensidade são irrestritas dificultando atingir denotação e conotação precisas. 

Quantas coisas são precisas para dar felicidade?
O que estas coisas precisam ser? 

A felicidade depende de condições que estão em constante transformação, fuga, escapando do homem. Dwitgh Furrow diz que "ser feliz é manter ativamente o que é vulnerável." 

O vulnerável é frágil, é instável, tende a acabar e cada pessoa necessita se esforçar para reter o que lhe faz bem. 

Bem?! 

Sim, a felicidade é um bem. 
Então, está respondido! 

Será mesmo? 

Pense melhor... Diga o que é o bem. Ele é o mesmo para todos? Se alcança da mesma forma? 



Afinal, o que é o bem? 
Quem o institui? 
O bem é sempre a mesma coisa ou muda? 
Ele é universal ou particular? 

Cada filósofo vai propor caminhos até a felicidade que podem se complementar ou não. 

Contudo, uma coisa é certa: não há receitas de felicidade prontas.

Se houvesse, já não seríamos todos felizes? 
Temos alegrais e tristezas na vida. 

Motivados por esta árdua questão que intriga filósofos, psicólogos, médicos, juristas, sociólogos, religiosos e pode-se dizer que intriga todos os que se deparam com o tema, os alunos da turma 306 da Escola Municipal de Ensino Médio Santa Rita de Cássia, em Gravataí, na Grande Porto Alegre, estão investigando o que seja a felicidade. 

O trabalho está sendo desenvolvido em conjunto com o professor Paulo Airton Hartmann. São três encontros para trabalhar um grande volume de informações que abaixo vêm condensadas. No final, os alunos vão se aventurar a compor uma definição própria de felicidade a partir dos elementos apresentados à reflexão. Assim eles terão passado pela problematização, pela argumentação e pela conceitualização, fixando elementos essenciais à aprendizagem filosófica. 


O resultado apresentado pelos alunos a respeito do tema que estamos conduzindo estará aqui no blog. Alguns pensamentos dos estudantes já estão no publicados como comentários no post O prazer de Epicuro para serem conferidos. 

EM BUSCA DA FELICIDADE

A felicidade pode ser compreendida como a razão última do viver e do filosofar. Como a vida e a filosofia são incertas e incompletas, assim também é a felicidade. (Charles Dalberto).

Só o homem pode ser feliz. Então, precisamos encontrar no ser humano as razões da felicidade. Não é tarefa fácil.

“Todos aspiramos à felicidade, mas, quanto a conhecer seu caminho, tateamos como nas trevas.” Sêneca

Precisamos de guias. Eles são o INSTINTO/EMOÇÃO e a RAZÃO e vão nos levar às dimensões ESTÉTICAS e ÉTICAS do homem.

ESTÉTICO é tudo o que se relaciona com o corpo. O homem é um ser material vivo, portanto, biológico; é um animal. O corpo é fonte de necessidades que produzem desejos; os desejos estimulam a vontade; a vontade leva à ação.

AMOR ERÓTICO: carência daquilo que faz feliz, desejo que procura satisfação, paixão.
AMOR FILIA: felicidade enquanto se está junto com a coisa amada, amor da amizade.

O homem age para buscar satisfação. Um parâmetro para saber o que procurar e o que rejeitar são as sensações de PRAZER e DOR.

“Chamamos ao prazer o princípio e fim do viver feliz. [...] Prazer e dor são duas afecções que encontramos em todos os animais; uma favorável e outra contrária: critério da escolha e da aversão.” Epicuro 

UTILITARISMO: cálculo dos benefícios e dos prejuízos das ações para ter o MÁXIMO DE PRAZER e o MÍNIMO DE DOR.

HEDONISMO: doutrina do prazer. O hedonismo se torna problema quando pelo prazer há excessos e prejuízos individuais e coletivos. Para evitar isto é preciso ser PRUDENTE. Prudência é VIRTUDE, qualidade positiva que dá PODER AO HOMEM ao dar a ele SABEDORIA.

“As virtudes acham-se, pois, por natureza, unidas à vida feliz e a vida feliz é inseparável das mesmas” Epicuro

O homem é mais do que um animal. Ele RACIOCINA. Não age só por desejo, por INSTINTO, por EMOÇÃO, mas reflete para agir do MELHOR MODO.

“Faze a seguinte interrogação a respeito de cada desejo: que me acontecerá se se realizar o que quer o meu desejo?”Epicuro

Na busca da sua satisfação, o homem pensa o que é o BEM e cria razões ÉTICAS para agir certo e ser feliz.

 “[...]a vida conforme ao intelecto[...] esta é a vida mais feliz.”Aristóteles

Porque para Aristóteles cada espécie tem um tipo de prazer. O tipo do prazer do homem é conforme sua finalidade, que é pensar e ser SÁBIO. A SABEDORIA É O PRAZER SEM FIM!

Pensando, o homem pode concluir que há um BEM MÁXIMO e que este BEM pode ser DEUS. Viver conforme o que MANDA este bem máximo produziria a felicidade. Amar a vida, aos outros, ser virtuoso, aplicar talentos pelo bem coletivo, cuidar de si e do mundo.

AMOR ÁGAPE: amor fraterno e incondicional, sem interesses, amor doado e divino, amor “santo”.
 
“[...] os homens bons são sempre felizes e infelizes os vis; e a felicidade dos primeiros (os bons) não difere da felicidade divina.” Zenão de Cítio

DEUS não pode ser demonstrado, apenas provado PELA RAZÃO e aceito pela FÉ. Mas isto NÃO ANULA A ÉTICA!

Epicuro é MATERIALISTA e tem FÉ que a vida é somente biológica. Mas isto também NÃO ANULA A ÉTICA!

A ÉTICA são REGRAS sociais gerais que permitem CONVIVER EM HARMONIA E EM PAZ, cada um PROCURANDO A SUA FELICIDADE com a LIBERDADE possível entre todos.

Buscar a FELICIDADE envolve refletir sobre QUEM SOU EU e quais são meus VALORES, DIREITOS E DEVERES:

- O que é o BEM e o que é o MAL, o que é CERTO e o que é ERRADO para mim e para MINHA COMUNIDADE, desde a minha casa ao mundo todo. O que necessito enquanto um ser ÉTICO?

- O que causa prazer e o que causa dor. O que preciso e POSSO TER enquanto um ser ESTÉTICO?

CONHEÇA-TE A TI MESMO! Sócrates, frase do Templo de Apolo em Delfos.

“A felicidade envolve um julgamento de aprovação sobre nossa vida, um julgamento de que a maioria de nossas necessidades está sendo satisfeita, e que vale a pena ter tais quereres.” Dwight Furrow



Vamos tentar definir melhor o que seja a FELICIDADE? 


imagens: twitter, pgfilo, louge.obviousmag, imgarcade, biografiasyvidas, asboasnovas, mensagenscomamor, Nilza Scotti

segunda-feira, 30 de março de 2015

Lógica & ontológica

A verdade é estática.
A verdade é móvel.

Antagonismo filosófico que vem de longe, de Heráclito e Parmênides, especialmente.

Ao longo da história da filosofia, grandes e importantes foram os que defenderam uma ou outra posição. Houve também aqueles pensadores que tentaram conciliar as duas dimensões, do devir e do permanecer, como Platão ou Aristóteles e todos os que seguiram seus passos na investigação estrutural do ser.

A verdade é que tudo transita?

Enunciar a verdade esbarra na impossibilidade de demostrá-la e se torna questão de linguagem.

A verdade é uma fala constantemente desmentida pela realidade.

Seria?

"Todos vós, ó sábios célebres, tendes servido o povo e a superstição do povo, e não a verdade." Assim falou Zaratustra, Parte II. 

Para você, qual a definição de verdade?

A verdade e o ser são o mundo concreto e impermanente ou há uma dimensão das essências onde tudo permanece, inclusive o espírito humano?

A lógica pode dar conta das questões ontológicas?

imagem: counter-currents

terça-feira, 17 de março de 2015

Moralismo à inglesa?

Na Inglaterra, três juízes foram expulsos da magistratura e outro pediu demissão do cargo para não ter o mesmo destino.

A razão da pena imposta aos magistrados foi por eles terem acessado conteúdo pornográfico durante e no local de trabalho, segundo o jornal espanhol El País.

Uma investigação apurou os fatos relacionados à conduta dos juízes e entendeu que, apesar de não ter sido ilegal e de nem mesmo a pornografia acessada ser ilegal, o comportamento deles foi considerado inaceitável para quem exerce a função.


Você pode pensar e chegar à conclusão de que a medida foi correta.



Afinal, eles são magistrados, devem honrar as atribuições públicas a eles confiadas e jamais traí-las por interesse próprio, nem macular a imagem representativa de probidade e lisura de suas figuras. Se for permitido acessar uma pornografia aqui e outra lá, quem sabe não se está sendo licencioso para com maiores corrupções dos costumes e das funções?

No entanto, pode ainda restar uma sensação de injustiça... De desequilíbrio entre a ação e a consequência.

Você sente?
Seu senso moral sugere isto?
Ou não?

Sinal da cultura brasileira, mais permissiva, influenciando o julgamento?

A conduta deles não pode ser aprovada.
Mas, deve ser reprovada com a perda das funções?

A Inglaterra é um país liberal, porém, seus costumes foram moldados com a rígida moral vitoriana que, entre outros hábitos, promoveu repressões duras à sexualidade no Reino Unido.

Num ambiente conservador e tradicional como a corte judiciária a repressão é característica que pode ainda se manifestar como traço ativo da cultura.

Vale lembrar que a moral se relaciona aos valores da conduta que dividem bem do mal e possuem caráter histórico, transitório e restrito, diferente da ética, que dela se abastece e de alguma forma se equivale na origem, mas que, enquanto ciência da moral, pretende estabelecer normatizações universais do comportamento.

Os juízes incorreram em uma falta ética que parece ter sido julgada sob parâmetros morais.
Ou mais do que isto...

Não se trata, devido ao aparente exagero, de moralismo?

Como você sabe, moralismo é entendido como excesso de moralidade quando se toma o valor moral em si mesmo como absoluto, sem levar em consideração nos juízos as relações entre a ação, as circunstâncias do contexto e a norma moral.


No moralismo, a moral é elevada à condição de lei sob a qual não se pode transigir. Está absoluta e acima do homem que a ela deve se curvar.


Será mesmo?
Não há que se relativizar e entender a humanidade da ação?

"[...] é um formalismo ou conformismo moral que tem pouca substância humana." ABBAGNANO, Nicola.

Ou como diz Nietzsche,

"Não existem fenômenos morais, mas interpretações morais dos fenômenos." (Além do Bem e do Mal, fr. 108)

Então, a interpretação da comissão a respeito da conduta dos juízes e a punição adotada são equivalentes com a gravidade do ato?

Lembre-se de que, se nos achamos mais flexíveis e tolerantes a questões como esta no cotidiano, no âmbito profissional a conduta deve ser observada e conformada à organização para a qual se trabalha.

Políticas de T.I. e códigos de ética podem vetar o acesso a certos sites e regrar outras atitudes punindo, até severamente, os infratores, mesmo que sejam colaboradores capacitados e estratégicos.

Depende a cultura, certo?
Errado?

O que você acha?

link: El País
imagens: público/internet, poiesispsicologia, itabunaurgente

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Razão para ter fé?


Sou muito racional para crer em Deus.

É o que muitos costumam dizer e com isto separam , como dado revelado, de ciência, dado empírico racionalmente metodizado.

No entanto, as provas da existência de Deus são racionais. Elaboradas rigorosamente lógicas, elas sustenta-se, em última instância, no racionalismo como base do conhecimento. Quer dizer que uma epistemologia sensorial remete ao ceticismo, já que os sentidos enganam. Tanto é que a ciência muda.

Você conhece o falibilismo e o pensamento de Karl Popper? 

Voltando ao assunto em questão, sob o ponto de vista do racionalismo, algo, para ser verdadeiro, precisa suportar o exame da razão sem ser falseado, sustentando como verdade da razão não sujeita às alterações que dão ao concreto, base do empirismo, aparências de realidade definitiva. A realidade concreta é mutável, transitória. Portanto, move-se sujeita ao tempo.
 
Sob a perspectiva do racionalismo, os conceitos de finitude e infinitude vão guiar Descartes a elaborar sua prova ontológica.

Um ser finito como o homem possui ideias de seres finitos, isto significa que alguns deles existem fora da mente. Porém, a ideia do infinito não é a representação de algo existente no mundo das coisas finitas, o real, mas, ela está no homem. Sendo o finito tomado por negação do infinito pelo princípio lógico de que aquilo que pode o mais pode o menos e não o contrário, deve haver algo infinito, pelo menos um que seja existente e confira realidade à sua ideia. A infinitude é o predicado que totaliza todos os outros do que se chama Deus: infinitamente bom, poderoso, etc. Então, Deus, de realidade essencial pensada é admitida como realidade ontológica, existente.
 
 “[...] Deus existe; pois, ainda que a ideia de substância esteja em mim, pelo próprio fato de eu ser uma substância finita, eu não teria, todavia, a ideia de uma substância infinita, eu que sou um ser finito, se ela não tivesse sido colocada em mim por uma substância que fosse verdadeiramente infinita.” (Meditações Metafísicas, 3ª)
 
Tipo, se você pensa em Deus, o representa conceitualmente, é porque ele existe em algum lugar e a ideia dele no ser pensante é sinal de um contato intuitivo entre o sujeito e o objeto que vem exposto pela via racional.
 
Descartes diz que a ideia de Deus é como uma marca deixada pelo criador no criado.
 
Isto parece lógico para você?
É possível acreditar nisto?
Por quê?
 
O argumento cartesiano vai ser amplamente problematizado na modernidade.
 
 
imagem: filosofósforos/facebook/internet




segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Dá no que pensar

Você aprova a política da sua comunidade democrática?

A democracia é um contrato político e jurídico entre os integrantes de uma sociedade para a constituição do seu Estado.

De origem liberal, as democracias modernas garantem direitos relacionados à vida, à liberdade e à propriedade, fundamentalmente naturais.

Sem entrarmos além nas descrições dos regimes democráticos contemporâneos, que pode ser longa e muitos já conhecem, o que queremos propor é um pequeno paralelo entre a situação política de algumas sociedades livres e a crítica de Thomas Morus, autor da Utopia.

Seu pensamento apontou as arbitrariedades cometidas pelos governos que exploram a coisa pública e denunciou abusos que vão das monarquias às repúblicas. Mas, não sem contradições.

A principal causa da miséria pública reside no número excessivo de nobres, zangões ociosos, que se nutrem do suor e do trabalho de outrem [...] (Livro 1, p. 10).

Abandonais milhões de crianças aos estragos de uma educação viciosa e imoral. A corrupção emurchece, à vossa vista, essas jovens plantas que poderiam florescer para a virtude, e, vós as matais, quando, tornadas homens, cometem os crimes que germinavam desde o berço em suas almas. E, no entanto, que é que fabricais? Ladrões, para ter o prazer de enforcá-los. (Idem, p. 13).


"[...] é necessário observar não só as convenções privadas entre simples cidadãos, mas ainda as leis públicas, que regulam a distribuição das comodidades da vida, em outros termos, que distribuem a matéria do prazer, quando estas leis foram justamente promulgadas por um bom príncipe, ou sancionadas pelo consentimento geral de um povo, nem oprimido pela tirania, nem embaído pelo artifício. A sabedoria reside em procurar a felicidade sem violar as leis." (Idem, p. 46).

A obra provocadora enverada pela política, pelo direito, pela economia, pela administração, pelo urbanismo, pela religião, pelos costumes e propõe um sistema onde a justiça social se dá pela comunhão geral dos bens e da participação na gestão do Estado, porém, com o controle total deste sobre os cidadãos para a manutenção da ordem e da igualdade. É uma semente tanto do comunismo quanto da democracia socialista.

"Lá todos são felizes porque não há propriedade privada, que só causa desigualdade e sofrimento. [...] O problema é que não há liberdade na Utopia." (RIBEIRO, 2007, p. 14)

Ganância e exploração; privilégio e desvantagem; autoridade e opressão; autonomia e heteronomia; indivíduo e coletividade, igualdade e desigualdade; justiça e injustiça; liberdade e servidão... Difícil balanço.


Há algo de Morus que se aplica a sua maneira de perceber a política da sua sociedade e de alguma outra de seu interesse?

Dá no que pensar, não?

MORUS, Thomas. Utopia. Ed. Ridendo castigat mores. www.virtualbooks.com.br
RIBEIRO, Renato Janine. Quase quinhetos anos de utopia. Filosofia: ciência e vida, n. 10, ano 2007, p. 14-15.  
imagens: utopia.vogedascht, robtshepherd

sábado, 24 de janeiro de 2015

Muito prazer

O verão é um período dionisíaco.

Se vive o corpo e com ele as sensações.

O verão é um momento estético.

Em nome do descanso, as pessoas, de modo geral, relaxam as regras. Ou seja, deixam de lado a racionalidade que normatiza a conduta. Reduzem o intelecto e intensificam a experiência sensorial.

Exageros, nesta época, são tolerados mais do que em outras fases do ano por se instalar um pacto tácito de que é preciso fruir o prazer antes que a chance acabe. Uma dose de pressa agita a perseguição a esta felicidade passageira.

Alegria efêmera resultante de comportamento mais hedonista.

Comer além da conta, beber demais, se expor ao sol, desejar aventuras sentimentais, fazer toda a atividade esportiva acumulada, dormir até cansar, ficar acordado até não aguentar, festejar por qualquer motivo, cultivar euforias, etc.

É bom sentir alegria e o prazer é uma necessidade.

Mas, é ele, o prazer sensorial, o Bem humano?
É por ele que se vive?
As ações são movidas em busca de prazer?
O prazer, como fim, justifica os meios para obtê-lo?
Pode haver algum prazer além do experimentado como sensação física? 

Platão dedicou o diálogo Filebo a investigar o lugar que o prazer ocupa na vida humana e sua relação com a felicidade. Para o filósofo, a vida ideal e portanto boa é aquela onde se misturam em proporção harmônica o intelecto e o prazer. Não se pode viver, enquanto humano, uma vida de pureza intelectual, o que retiraria a sensação, nem de puro prazer, o que excluiria a razão.

"Platão sustenta que o Bem pode ser encontrado na vida mista, e mais provavelmente, quando existe uma mistura bem-feita de prazer e sabedoria." (MACIEL, 2002, p. 246)

Mas, qual a mistura que se pode considerar satisfatória? 
Nada fácil responder...

No entendimento da medida justa entre as partes intelectual e prazerosa Platão propõe que o intelecto oriente a conduta na seleção dos prazeres afastando os falsos e exagerados que podem se constituir modos violentos de satisfação, prejudiciais ao homem e preferindo os verdadeiros conforme o ideal de virtude.

A obra trata de analisar o tema sob as perspectivas práticas do bem resultante da realização da essência humana ou a partir de um motor da ação, no caso, o prazer.

Então, o que justifica os excessos do verão?




Ah! Vem aí o carnaval...






MACIEL, Sonia Maria. Ética e felicidade: um estudo do Filebo de Platão. Porto Alegre: Edipucrs, 2002.

imagens: arte2b, skoob, gabriel rangel
link: a filosofia