Sua revista escolar de filosofia.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Você vai 'descartar' isto?

Uma reflexão cartesiana.

Agir segundo a verdade é ser autônomo, pois significa seguir a própria razão.
Porém, a razão é melhor exercida quando ela se aplica em conhecer clara e distintamente a realidade.
Assim, é pela via intelectual que cada um afasta opiniões vulgares e cultiva conhecimentos seguros.
Deste modo, o progresso intelectual aprimora a vontade e conduz às melhores ações.
E as melhores ações são as verdadeiras.
Logo, a liberdade não é fazer o que se deseja, mas, fazer o que é verdadeiramente correto.





Você vai 'descartar' isto?









imagem: atheistnexus

Na Hipermodernidade


Na hipermodernidade o indivíduo se satura de si mesmo. Frui tudo, consome tudo no presente hiperbólico. Na angústia por se eternizar, eterniza o prazer pela repetição das sensações. Hipermercado, hiperfesta, hiperturismo, hiperexposição, hiperdemocracia, hiperopinião, hiperdiálogo, hipermonólogo.
 
 
O outro está ao lado, mas está distante como se fosse outra galáxia. Cada um orbita em si, solitário como estrela de brilho rápido, ávido pelo combustível que o mantenha aceso. Ama-se menos o ser amado do que o próprio umbigo. Altruísmo e egoísmo são emoções na moda e que se quer viver para se reconhecer vivo.
 
Já não são conceitos morais tradicionais.
não há tradição.
 
Ela também virou objeto presentificado para satisfazer ao consumo. Olha-se para o passado, as raízes estão mortas. Mira-se o futuro, as utopias são vapores. Só se vê o presente e a condenação à liberdade angustiante.

Hipermodernidade: conceito de Gilles Lipovetsky
 
Publicado originalmente no meu Facebook
imagem: Salvador Dalí 

segunda-feira, 7 de abril de 2014

É transcendental!

Faturas a pagar e R$ 600,00 em dinheiro.

Foi o que Marco Antônio da Silva achou em uma parada de ônibus na cidade de São Leopoldo (RS).

Ele pegou o dinheiro, as contas e pagou todas elas.
Depois procurou a dona do valor e dos documentos para devolver o troco.

Esta é uma atitude que merece o Selo 100% Ética!

Comovente.


Isto, porque Marco Antônio venceu qualquer inclinação pessoal, eliminou qualquer interesse seu em favor do cumprimento de um dever.

Se ele pensasse de modo utilitarista, talvez fizesse o cálculo: este dinheiro pagaria as contas de uma pessoa e enriqueceria x credores. Porém, poderia comprar mais coisas e alegrar mais pessoas, fazendo um bem em maior quantidade. Então, ficaria com o dinheiro.

Se fosse um contratualista, poderia alegar que o dinheiro achado não é criminoso. É uma casualidade positiva para quem o encontra e nada na sociedade impede que se fique com o valor. Ficaria com o dinheiro.

Se fosse um pragmático, poderia alegar que o dinheiro salvaria débitos dele que considera ainda mais graves do que as contas achadas, então optaria por ficar com a grana para atender a um compromisso maior.

Mas, pensando como um intencionalista, Marco Antônio considerou: se fosse meu dinheiro e minhas contas, gostaria que me restituíssem. Ou seja, o valor está na intenção, nela repousa o bem a ser praticado.



Spinoza diria algo do tipo: "Este rapaz entendeu a virtude como ação que aumenta a alegria, logo, eleva a potência de agir. Ele sentiu isto e agiu por correspondência ao próprio divino que está nele. Ao mesmo tempo, alegrou a dona do dinheiro, elevando nela a satisfação pela vida! Celestial!"






Kant elogiaria o Marco nestes termos: "O Imperativo Categórico é bem exemplificado aqui. No lugar de buscar móbiles pessoais para a ação, procurou agir de modo a tornar sua atitude uma regra universal. Cumpriu com um dever da razão de modo livre, guiado apenas pela sublime moral. É transcendental."





Até mesmo o estoico imperador Marco Aurélio, xará do protagonista desta história celebraria: "Valoroso, este jovem. Seu gesto vai além do dever e configura a ação de um sábio. Age conforme o Logos Eterno. Tem Deus na mente. Bendito seja!"




fonte: Correio Braziliense
imagens: CB, internet divulgação

terça-feira, 25 de março de 2014

O prazer de Epicuro

Numa tarde, tomando um café no bar da RBSTV, em Porto Alegre, eu e meus amigos jornalistas e colegas de trabalho na época, André Azeredo, Simone Lazzari  e Tatata Pimentel, conversávamos sobre a eficácia das campanhas antidrogas.

Tatata, o professor Beto, como gostava de ser chamado, já falecido, que também era um intelectual apaixonado pela Filosofia, como um dia me falou na PUCRS, disse que as campanhas nunca teriam o resultado esperado.





Por uma razão simples.

A maior parte das campanhas educativas são fundamentadas no medo e a droga dá prazer.

O que ele propôs foi que o prazer, um bem, é maior do que o receio do mal ou o mal de fato.

Será que as pessoas são levadas por este princípio?
Em que medida o prazer é um bem tão concreto que supera tudo?
A cultura atual estimula este tipo de busca?

Lá no passado, na história do helenismo, um filósofo ofereceu o prazer humano como o bem excelente a ser conquistado. Porém, o que foi legado a nós, sofreu distorções.

Estamos falando de Epicuro.

O epicurismo surgiu no período helenista, quando o mundo antigo fora constituído o império de Alexandre da Macedônia. A polis grega estava dissolvida na nova constituição política e os grandes sistemas platônico e aristotélico que defendiam o homem-cidadão já não tinham força. O homem era visto como um indivíduo. Já não encontrava correspondência em ser-para-o-Estado, mas sim em ser-para-si-mesmo. Metafísicas que sustentavam a virtude pública eram postas de lado e a administração do Estado deixava de ser uma responsabilidade existencial, diga-se assim, para o bem de um e de todos.

Esta ideia é familiar?
 
Semelhanças com a globalização contemporânea e a helenista não são meras coincidências.



Epicuro entende que a filosofia precisa propor uma saída real e concreta para a pergunta: o que é ser feliz e como se consegue isto?

Materialista, Epicuro acredita que as sensações do corpo são verdadeiramente reais e não um engano dos sentidos, pois o homem é um ser material e seu bem maior deve ser também material. Este bem é o prazer.

Neste sentido, não há mundos transcendentes ou instâncias intelectuais a serem alcançadas para o gozo de quem vive. Viver é uma presença física em toda a sua intensidade. Se parássemos por aqui, teríamos uma série de decorrências apontando a busca pelo prazer como o efeito desejado para a felicidade. Logo, esbarraríamos em questões morais que indagariam se qualquer prazer é válido.

Não para Epicuro.

Para ele, prazer e dor são estados transitórios e, como se busca a felicidade, ela deve ter a maior duração que se consiga. O filósofo de Samos propõe, então, que estar imperturbável é o prazer que se procura. Isto significa que cada pessoa deve observar a si própria para compreender o que a faz feliz deste modo, sem causar perturbações ou estados de dor.

Não vale o prazer de agora que gera o vazio depois.

“Para Epicuro, a tarefa da filosofia consistia em ajudar a interpretar nossas pulsões indefinidas e, dessa forma, evitar planos equivocados para a obtenção da felicidade.” (BOTTON, p. 70)

A felicidade é a ausência de dor, aponia, e de turbações, ataraxia.

E a elas se chega por ininterrupto filosofar, por aplicar a razão no autoconhecimento e assim evitar apegos desnecessários e fruições supérfluas e desastrosas.

“Sendo assim, a regra moral não é o prazer como tal, mas a razão que julga e discrimina, ou seja, a sabedoria que, entre os prazeres, escolhe aqueles que não comportam em si dor e perturbação, descartando aqueles que dão gozo momentâneo, mas trazem consigo dores e perturbações.” (REALE; ANTISERI, p. 247)

Propriedades, honrarias e responsabilidades públicas, para Epicuro, devem ser evitadas, pois afastam o homem de si mesmo e de sua realização como indivíduo sábio e feliz. É preciso se concentrar em atender às necessidades básicas de conservação. Isto evita dores e torna o homem rico, pois o preserva das ambições e vaidades. Resta como laço legítimo de relação entre os homens, a amizade, efeito de um apreço verdadeiro e desinteressado.

Vamos voltar à droga?

Enquanto certas campanhas alertam para os perigos, o entorpecente é oferecido como promessa de prazer. É comum os epecialistas se referirem ao consumo que pode chegar à compulsividade como fruição ilimitada com intenção de perpetuar um bem que escoa.
 
E não é alegria e prazer o que se procura na vida? Mas não é qualquer prazer...
 
A droga não é consumida atendendo a necessidades prazerosas?
Não vivemos uma pós-modernidade materialista, calcada no imediato, hedonista, que cultua o sucesso, o bem-estar incondicional, a vitória pessoal, a beleza, a riqueza, o dinamismo e que pouco reflete sobre a necessidade disto tudo e os modos justos de conquistá-lo?
A droga não é uma falsa entrada neste mundo de poder?
Não é também uma fuga à perturbação, busca por ataraxia e aponia?
A droga não compensa afetos inexistentes num cenário de egoísmo e solidão?

Entra assim, o entorpecente, na lista das coisas dispensáveis, nocivas e viciantes que atormentam a existência humana. Resultado de carências e ignorâncias que diferentes saberes se aplicam em combater. Todavia, a barreira está na reflexão pessoal de cada um, nem sempre feita com profundidade, sobre as consequências dos atos voluntários.

É um problema de consciência, logo, do indivíduo e sua complexidade emocional e sua racionalidade. A ele é que o epicurismo se dirige.

A droga sem prescrição médica, para a satisfação vã e um risco potencial seria condenada por Epicuro como foram vários abusos. Contudo, o filósofo é erradamente tomado por licencioso.

“Faze a seguinte interrogação a respeito de cada desejo: que me acontecerá se se realizar o que quer o meu desejo?” (MONDOLFO,  p. 86)

Em seu Jardim, ele cultivava a vida simples, lúcida, entre amigos.
Em horas de conversas agradáveis, como aquela que originou este post.

 
BOTTON, Alain de. As consolações da filosofia. Porto Alegre: LP&M, 2012.
MONDOLFO, Rodolfo. O pensamento antigo. São Paulo: Mestre Jou, 1973.
REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia: antiguidade e idade média. São Paulo: Paulus, 1990.
imagens: revistapress, infoescola, familia.com.br, reporteralagoas

sexta-feira, 21 de março de 2014

Evolução biológica e ética

Você toma decisões éticas todos os dias.

Ao respeitar ou desrespeitar códigos sociais, você opta entre o que considera correto ou não do ponto de vista das regras comuns do comportamento humano.

Mas, estas regras não são universais.
Ou pelo menos não há uma critério universal e objetivo que garanta a validade delas de modo categórico. Pelo contrário, os princípios da ética na filosofia revelam pontos de partida e de chegada em sistemas que se diferenciam.

Deste modo, o que é ético para uma sociedade, pode não ser para outra, dependendo da adoção destes critérios e da cultura. Como na moral, se considerarmos que a moral é o conjunto dos costumes que transitam no tempo e têm seus valores alterados na história.

Porém, e se moral e ética não fosse mais do que resultado de ideias com origem na evolução biológica humana?

A neuroética se propõe a fundamentar esta hipótese.

Por exemplo, caso fosse inevitável, você mataria um número menor de pessoas para salvar um número maior?

Interferiria na cultura de uma sociedade para salvar da morte alguém que para você é certamente inocente, mas que para aquela cultura, precisa ser sacrificado?


Estas decisões evocam crenças, emoções e pensamento. Mas, elas são racionais ao final ou são mais complexas e envolvem a racionalidade numa herança neurológica da espécie humana?





Um texto de Fábio Marton (clique aqui) explora dilemas éticos de difícil solução e mostra como o filósofo e psicólogo evolutivo de Harvad, Joshua Greene, conduziu a análise das questões do ponto de vista da evolução humana.


imagens: Harvard, cartasparapi

quinta-feira, 6 de março de 2014

Kant, a violência e o mal moral

Você se sente inseguro em sociedade?

Se a resposta for positiva, é sinal de que o contrato civil, que institui direitos ao homem, tem falhas na sua aplicação. O estado civil substitui o estado natural para garantir a vida, a liberdade e a propriedade aos indivíduos, numa definição liberal.

A instituição do contrato civil foi necessária para colocar limites às ações humanas. Cada um cede uma porção de sua liberdade para receber a proteção da lei e da sociedade.

Mas, por que a necessidade desta proteção?

Filósofos como Hobbes, acreditam que a natureza humana é . Ou seja, em estado natural, o homem cometerá o mal contra seu semelhante para defender seus próprios interesses, atender às inclinações próprias, aos desejos elementares.

Hoje, mesmo com as proibições da lei, as advertências da ética e da moral e as recomendações da religião, o homem segue praticando o mal.

Nesta quarta-feira, (05/03/14) um homem matou a própria mulher em Canoas, na Grande Porto Alegre. Ele decapitou a vítima com uma serra. O crime teria sido por ciúmes, segundo a polícia.

Um crime passional, envolve paixão, sofrimento, honra, orgulho, vaidade, fidelidade traída.

A motivação tem relação com interesses particulares que, de modo patológico, levaram ao homicídio.
Mas, quanto de interesses particulares há nas ações diárias que têm a aparência de serem boas, porém, atendem, no fundo, aos desejos privados, não podendo serem postas como modelo do comportamento, apesar de serem comuns?

São os móbiles da ação que Kant chamou de imperativos hipotéticos, diferentes do imperativo categórico, moral e universal.

E por que, mesmo conhecendo o que seja o bem, impessoal, desinteressado, para todos, dever de cada um para a harmonia e a realização moral geral, não se pratica este bem?

Heiner Klemme, da Universidade de Mainz, na Alemanha, propõe uma análise de Kant em um artigo onde estuda a hipótese do mal radical humano estar ligado à sua natureza. Na obra A religião nos limites da simples razão, Kant propõe sua análise da questão.

O mal moral natural seria a expressão dessa propensão do homem de priorizar seus interesses particulares antes do dever ético legítimo, resultado da operação do livre-arbítrio pelo reconhecimento racional da Lei Moral da qual o homem participa sempre como ser inteligível, como proposto por Kant, no cumprimento desse dever ético com implicações transformadoras do caráter e dos valores constituidores de uma comunidade universal e moralmente elevada.

Compreender o bem, a liberdade e a moral verdadeiras, conforme o pensamento kantiano, afastaria o homem do mal que ele elege ou a ele sucumbe por imperfeição no uso do entendimento e da liberdade e que se expressa no mundo do fenômeno pela prática humana.

Interessado?
Clique aqui e faça sua reflexão.

imagem: antropologia.ube
fonte: band

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Direitos humanos: uma rápida visão sobre alguns fundamentos

O assunto não é fácil.

É polêmico.

E poderia não ser?
Trata de questões humanas, envolve interpretações, crenças, opiniões.
Não é uma ciência exata e por isto, requer envolvimento e reflexão.

Preparado?

Numa aula sobre Direitos Humanos, o acadêmico Edgar Dornelles levantou uma questão que faz parte da realidade do Brasil e de outras sociedades.

Ele citou um caso de uma pessoa pobre que, flagrada furtando, foi presa e condenada.
Sofreu a ação da pena imposta pelo Estado e na cadeia, segundo ele, foi violado em seus direitos fundamentais.

O que o Edgar perguntava é por que a justiça parece mais rápida, dura, inflexível para alguns, especialmente os economicamente vulneráveis, e para outros ela é atenuada por recursos e outras formas de amenizar as penas dos culpados.

Se todos são iguais para a lei, por que as consequências de suas aplicações são diferentes?

Pelo princípio da isonomia, não deve haver diferenças entre as pessoas perante a lei.
Porém, esta igualdade é fundamentada por uma ideia que desce da abstração para o mundo concreto e é aí que há distorções.

Os direitos humanos, consagrados no século XX após a II Guerra, têm razões filosóficas que vêm de longe.

Vamos remontar rapidamente um percurso que pode esclarecer melhor algumas origens que inda hoje estão presentes na maneira de nós pensarmos.

Lá na Grécia

Na antiguidade, o paradigma dominante tinha na metafísica aristotélica sua grande razão. O pensador de Estagira consolidou a visão vigente de que no universo cada coisa tem sua função e motivo de existir. Tudo está no seu lugar natural e exercer sua finalidade atribuída pelo cosmos é realizar suas virtudes e contribuir para a harmonia total.

A chuva tem que cair, a pedra tem que estar no chão, os deuses governam o universo e cada homem tem seu espaço na sociedade: o escravo é para servir, o homem capaz é para conduzir a pólis, etc. O importante é cada um entender qual sua posição e realizá-la do melhor modo.

Neste sentido, não há igualdade entre os humanos.

Há sim desigualdade e aos melhores são dadas as melhores condições e recompensas, enquanto que aos piores, será dado o correspondente.

Mas, e a razão? Todos a possuem!

Podemos chamar a razão de comum aos humanos, não de igual.

No mundo de Aristóteles, os estúpidos ou fracassados eram excluídos.

Este tipo de pensamento é familiar para você?

A vida feliz é a moral. A vida moral (prática, que se modifica no tempo) é fazer o que é certo. Fazer o que é certo é positivar, fazer bem feito, os talentos naturais dados pelo universo. 

"Com efeito, o que, por natureza, é próprio a cada um, é também para cada um, a melhor e mais doce coisa. Logo, para o homem (é tal) e vida conforme o intelecto, pois este é, sobretudo, o que constitui o homem. Por isso, esta é a vida mais feliz." (Ética a Nicômaco, X, 7, 1 177-8. MONDOLFO, p. 58, 1973)

Conhecer a si mesmo é um imperativo neste contexto para o reconhecimento e a realização das virtudes.

"A razão cognoscitiva é para nós o fim segundo a natureza, e o conhecer é o fim último para o que nascemos." (Protréptico, fr. 10 c, Walzer = 61 Rose. MONDOLFO, p. 10, 1973)  

E Sócrates?
Teria morrido por desafiar a harmonia cósmica instituída?

Ele pregou o livre exercício do pensar para desvelar o real e compreender o bem e a virtude. No Mênon, que trata da virtude e se ela pode ser ensinada, é o escravo quem resolve os problemas de geometria ao supostamente recordar experiências transcendentes. A virtude tem origem divina e cabe ao homem buscá-la por meio do bem que pratica.

"[...] a virtude nem é dádiva que se receba por obra da natureza, nem coisa que possa ser ensinada, mas que é por graça divina e não pela intervenção da inteligência que a recebem os que a possuem." (PLATÃO, p. 74)

Ou seja, o filósofo afirma que está na alma, melhor do que o corpo e pertencente a um mundo superior, inteligível, que pode acessar, a possibilidade de se elevar a uma condição de sabedoria e felicidade.

Mas em qual tipo alma?

Naquela que filosofa.

Parece o que diz Aristóteles, sem dúvida. O convite do mestre de Platão será o de cada um pensar por si mesmo e fazer o bem acima de qualquer interesse. Nem tudo o que se diz ser justo é justo. Nem toda a verdade é verdadeira de fato. A tradição é a conservação de um estado e ele não é bom em si mesmo.

A razão precisa ser livre para ir ao encontro da verdade. No entanto, não pode haver liberdade quando há determinismo. Ao homem a razão dá a capacidade para decidir o que fazer. Se age conforme o universo, é feliz. Do contrário, é infeliz por não se realizar como indivíduo.

E mais, como não age em favor do cosmos seguindo seu destino, atrapalha a organização do universo. É indigno de viver e a infelicidade já é sinal de que está em erro moral e não merece compaixão. É um estorvo e um perigo para a sociedade. Precisa ser eliminado para o bem dos demais.

Você reconhece isto?

Neste contexto, o virtuoso vale mais do que o seu oposto e não há nada neles que os possa igualar.

Sócrates colocava a razão, e por isto o homem, acima dos valores da cultura de Atenas, mais confiante na tradição, nos deuses e nos seus governantes. Com isto, promoveu uma série de denúncias de práticas amparadas em sofismas, em lógicas pouco consistentes.

O escravo vale o mesmo que o cidadão nobre? A razão pode decidir isto? Os deuses podem acatar? Os costumes são menores do que a filosofia, que aponta um bem maior?

Sócrates morreu por desafiar o paradigma. Cristo sugeriu caminho parecido, dissidente, de amor incondicional a Deus e ao homem e teve destino semelhante, só que mais cruel.

A noção aristotélica permaneceu. Na Idade Média, atender ao chamado do universo ou de Deus significava seguir a vocação. Aos seres humanos cabia serem quem são na configuração cósmica. Santo Agostinho diz que o mal é resultado da escolha livre do homem, porém, o governo da realidade é de Deus e feliz é aquele que conforma-se a isto.

Homem moderno

Mas o ser racional segue presente e em vias de destacar-se como sujeito independente e digno por si mesmo. Com Descartes, ele ganha realidade lógica e metafísica. A Reforma reivindica a exegese. O Iluminismo prega a liberdade de pensar e a partir disto, modificar a ética e a política.


Com Kant, a metafísica ocidental é revolucionada.

O pensador alemão ainda entende o homem como um ser em dois níveis. No concreto, é um ser natural e condicionado pelas leis da natureza. Mas, como ser pensante, o homem é transcendental. É livre das leis do nível empírico e pertence à categoria do ser em si, inacessível. Kant consagra a ideia de que o ser racional é incondicionado e, por isto, não está determinado por forças do mundo físico a ser de um modo ou outro. Sobre o transcendental, nada pode ser conhecido por não haver dele experiência.



É como ser transcendental que o homem possui vontade e quando a conduz bem (o imperativo categórico é a ação de boa vontade com caráter ético universal), pode transformar sua condição no mundo.

Este pensamento é conhecido de todos nós porque compõe o paradigma moderno sobre o que é ser humano.

Para Aristóteles, a razão é um atributo natural com função clara.
Para Kant, um atributo transcendental.

O homem, neste sentido, é o ser entre os seres do mundo que vive nos dois níveis: um material, possível de ser experimentado e o imaterial ou ideal sobre o qual só se pode especular. É o ser que possui uma distinção superior aos demais.

Todo homem (transcendental) é livre (a liberdade é igualmente transcendental) para decidir sua vida e nisto, todos são iguais. Mas, quando sai do abstrato para o concreto, as circunstâncias da vida levam a destinos desiguais. Contudo, isto não é determinação ou dádiva divina. É escolha e pode ser alterada. Nem sempre se consegue, dadas as resistências do meio (mundo concreto), mas o princípio segue inalterado, sustentando as chances e suas estatísticas abertas.

arbítrio é livre.

E esta liberdade humana, percebida e fundamentada nos princípios objetivos do funcionamento da razão é sua dignidade essencial.

O ser humano já não é um ser entre os demais da natureza e por ela totalmente condicionado.
Nem mesmo Deus (ultrapassa a Escolástica e o aristotelismo especulativos) pode ser afirmado como condicionante da vida humana, pois Deus é produto da razão, uma especulação, transcendental e sobre o qual nada se pode saber por não haver experiência.

Aliás, a liberdade do homem o identifica com Deus, elevando-o.

O homem é um ser à parte, do grupo chamado humanidade, com valores próprios.

"[...] ele mesmo é, indubitavelmente, fenômeno, mas, por outro lado, do ponto de vista de certas faculdades, é também um objeto meramente inteligível, porque a sua ação não pode de maneira nenhuma atribuir-se à receptividade da sensibilidade. Denominamos a estas faculdades entendimento e razão." (KANT, p. 425)

Os direitos humanos, produto de uma ideia, apontam para a crença de que o homem é o fenômeno de um ser ideal real, espiritual, de valor supremo e que deve ser preservado com todos os esforços possíveis.

Voltemos aos direitos humanos e sua difícil aplicação.

Eles garantem os direitos fundamentais humanos reconhecidos como básicos e universais para que qualquer pessoa tenha mantida sua dignidade e integridade de ser humano: sua humanidade objetiva de ser racional e emocional que o distingue dos demais animais e das coisas inanimadas. As penas civis, por isto, não deveriam exceder o limite que destrói a dignidade humana.


"A moral política não pode proporcionar à sociedade nenhuma vantagem durável, se não for fundada sobre os sentimentos indeléveis do coração do homem. Toda lei que não for estabelecida sobre esta base encontrará sempre uma resistência à qual será constrangida a ceder." (BECCARIA, p. 9)

Mas, na prática, aceita-se uma proporcionalidade entre crime e castigo que fere o direito humano.

Então, se deveríamos ser tratados como iguais, por que não somos?

Certamente não é porque alguns são humanos e outros não!
A humanidade de uma pessoa é inalienável.

Retirar de alguém esta condição é retroceder às ideias do mundo antigo.

Não acontece ainda?
Não é o ato bárbaro, desumano?

Ele está presente em sociedades desiguais, patologicamente violentas, onde a civilidade é precária.

Sobre o caso levantado pelo Edgar, as violações são rotineiras devido ao grau de desajuste do sistema e da sociedade. Quando há ofensas aos direitos humanos, ocorre que nem todos movem ou conseguem mover a justiça para garantir o que é seu. É um instrumento do Direito acioná-lo, cada um que assim o deseja. Mas as pessoas desconhecem isto ou não alcançam e acabam sofrendo.

Quem pode ter um bom advogado ou conhece a lei, tem leis a seu favor, mesmo em caso de crime confirmado. A pena expressa não poderia transcender a si mesma e os castigos da prisão impostos por falta de estrutura, violências, entre outras arbitrariedades que atingem inocentes, suspeitos e condenados revelam a desumanidade de toda a estrutura. Mostram o Estado sendo negligente. Por isto denuncia-se tanto os desrespeitos aos direitos humanos.

Eles não servem para defender bandidos, como o senso comum declara pelas esquinas.

Contudo, numa sociedade desquilibrada, ele também se desquilibra.

E a justiça fica contaminada pelo ressentimento, pelo medo, pelo ódio, pela indiferença, pela discriminação.

Tremendos males do coração induzindo às falhas da razão.

O que você acha, os Direitos Humanos devem ser aplicados em qualquer situação?
Os Direitos Humanos favorecem criminosos? Por quê?
O que poderia ser feito para melhorar a aplicação dos Direitos Humanos em nossa sociedade?
O Brasil respeita os Direitos Humanos?
Se você fosse preso, gostaria de ser respeitado como pessoa humana ou tanto faz?

BECCARIA, Cesare. Dos delitos e das penas. Ridendo Castigat Mores. Disponível em <http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/delitosB.pdf> Acesso em: 22 fev. 2014
MONDOLFO, Rodolfo. O pensamento antigo. São Paulo: Mestre Jou, 1973.
PLATÃO. Mênon. Ediouro, 19__
KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. São Paulo: Martin Claret, 2003.

imagens: duhaime, biografiasyvidas, educa.madrid, onu, politicaspublicasbahia



 

domingo, 26 de janeiro de 2014

Nietzscheanas


Foges de ti e abandonas a Terra
Para que venha o Céu
Tua sede de luz enfraquece a sombra
Onde teu secreto eu urra de prazer e de dor
Ouça o teu próprio clamor

Ama a ti! E a cada grão ao teu redor
Como se o amanhã não fosse mais

Ama a ti! Um amor de oxigênio e sais
Células e minerais.

Ama a ti! Neste agora ou não mais
E depois, o que virá?

Cala-te, razão! Eis a vida, o turbilhão
Vontade em plena dimensão
De ser

O santo é um homem que acaba de morrer

imagem: stephenhicks

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

A alegria da natureza

Transformar o mundo ou se reconciliar com a realidade?

Para o homem, projetar a vida sob valores transcendentes pode ser uma necessidade contra a qual será impossível propor outra atitude. Faz parte da consciência da finitude, da impotência humana diante de tudo o que é considerado inevitável e impede a felicidade.

Neste caminho, o idealismo é o conjunto de fundamentos metafísicos que norteiam a existência.

Por outro lado, viver a imanência é aceitar o real ele é. É fruir a alegria da natureza presente sem esperanças ilusórias, extraindo do aqui e do agora, o que for possível para fazer da existência tão feliz quanto se consegue.

Um modo bastante epicurista de levar as coisas.

O que fazer?

O balanço da vida exige transitar entre realidade e idealidade.

Uma aula sobre Nietzsche (clique aqui) procura esclarecer melhor os conceitos antiniilistas (e alguns estoicos) que propõem atitudes de vida conectada ao presente e à conformação do homem com sua condição existencial concreta.

fonte: Espaço Ética
imagem: artelista

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Uma educação para além das relações mercadológicas

Quem o professor educa?
Para quem?
Para o quê?

A colega Naiama Porto, acadêmica de Sociologia e Administração, produziu como trabalho para o encerramento do semestre 2013/2 da turma SOC 0022 do Centro Universitário Leonardo da Vinci, um texto que ingressa na questão da educação preparatória para o grande mercado e seu sistema de política, economia e cultura.

Mas, antes de ler o que ela escreveu, vamos tentar pintar um breve retrato do professor?

Quadro docente

Dar contornos à figura do professor é delimitar uma forma enigmática.

Isto porque o docente é móvel e dinâmico. Jamais ele pode ser visto afastado do contexto de sua época. O professor é um pintor do mundo para aqueles que estão iniciando a ver a realidade. E ambos, educador e aluno, pertencem ao universo escolar que, por sua vez, está inserido na sociedade que vai da cidade aos outros continentes.

A educação se dá sem estar descolada do paradigma do seu tempo. Claro que isto não significa silenciar ao momento. A construção do futuro depende da crítica se esta marcha pretende ser positiva e crescente.

Hoje, ser professor é ser, em parte profissional. Quer dizer que a academia prepara com teoria e prática aqueles que vão à escola ensinar. Esta preparação é suficiente, boa, orientada? Se for considerado o esqueleto pedagógico, metodológico e didático que sustenta o professor, pode-se dizer que, em geral, ele mantém em pé a própria estrutura da sociedade presente. Ou seja, a escola educa para um mundo político, social, cultural e econômico que tem sua dinâmica no agora, como prioridade e no depois como possibilidade. Neste sentido, o professor é ainda um reprodutor de ideologias da sociedade burguesa. E neste século, o paradigma é o do conhecimento como fundamento da máquina global geradora de riqueza.

Percebe?

O conhecimento serve à geração de riqueza.

Aquele que não dominar a lógica atual da tecnologia, da comunicação, da pró-atividade, criatividade, da autonomia para pensar de modo sistêmico, global...

Opa!

Pensar?!

Mas, o trabalhador (modelado pela escola) não é alguém restringido à função que lhe cabe? O funcionário não é peça do mecanismo?

O mundo mecanicista vai dizendo adeus. É o que estão dizendo os pensadores contemporâneos. A modernidade foi esgotada na possibilidade de racionalização e com ela as divisões que nos afastavam expressas em nacionalismos, sectarismos de variada ordem, tradicionalismos pétreos, teorias totais, mas conservadoras. Se fôssemos à Física, diríamos que Newton foi confrontado por Planck. O cenário é de probabilidades quânticas, inclusive na educação.

A homem é plural e não é possivel mais educar de outro modo que não seja valorizando isto, lembra Gadotti (2007). Ao falar sobre educação, Russell (2002, p. 168) afirma que as regras "por mais sábias que sejam, não substituem a afeição e o tato." Rousseau (1992, p. 536)  declara ao Emílio: "Os encantos da virtude juntam-se para vós aos do amor; e a doce ligação que vos espera não é menos o prêmio de vossa sabedoria que o de vossa afeição." O balanço entre o técnico, o estético, o racional e o emocional integralizando o homem em todos os seus potenciais define um pouco o que se espera da educação contemporânea.

Educar é fazer com que o homem se autoilumine, conforme Kant, que traçou os limites da razão ao mesmo tempo em que a entronizou.

O professor é este que educa hoje para hoje e também para amanhã. Que infiltra no paradigma tintas que vão se misturar na tela para fazer surgir novos matizes de saber e com eles, novas colorações para a vida.

Neste sentido é que Naiama Porto estabelece sua reflexão e defende a docência conscientizadora, libertadora e reflexiva, que transcenda a instituição. Pois, educar não é somente instruir.

Boa leitura!

ROUSSEAU, Jean Jacques. Emílio ou da educação. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1992.
RUSSELL, Bertrand. O elogio ao ócio. Rio de Janeiro: Sextante, 2002.
GADOTTI, Moacir. A mudan;a está conosco. FILOSOFIA ciência & vida, ano I, ano 10, p. 6-13, 2007.
imagem: artodyssey, city.ogaki


UMA EDUCAÇÃO PARA ALÉM DAS RELAÇÕES MERCADOLÓGICAS
 
Naiama Porto
Ana Cláudia Alves
Centro Universitário Leonardo da Vinci - UNIASSELVI
Curso (Soc 0022) – Prática do Módulo III
03/11/2013


RESUMO
 
Esse estudo tem como objetivo dissertar sobre o papel do professor na atualidade, portando será analisado o papel do educador como emancipador social, o que pressupõe que a sua atuação, juntamente com o educando, vá além da sala de aula, de como a educação deve estar voltada para além dos anseios mercadológicos, deve estar voltada para o anseio do próprio educando como protagonista direto de seus anseios pessoais e coletivos, e que muitas vezes, a educação escolar e os anseios do educando são pontos antagônicos. O que gera um desacordo por parte dos atores envolvidos.

 
Palavras-chave:Educação.Capitalismo.Emancipação .

 
1 INTRODUÇÃO

 
A educação escolar é acessível a grande parte da população brasileira, mas em pleno século XXI, temos um índice de analfabetismo, de acordo com Pnad no ano de 2012, que 11,9% da população com 25 anos ou mais de idade não têm qualquer instrução, ou têm menos de um ano de estudo. Um ano antes, tal proporção era de 15,1%. Com ensino fundamental incompleto ou equivalente, estavam 33,5% do total da população desta faixa etária.  
Mesmo com obrigatoriedade do ensino escolar para crianças na faixa etária de 6 a 8 anos de idade, a escola ainda possui grande evasão. A faixa etária, de acordo com a amostragem, dos 14 aos 17 anos ,é a mais incidente. Os adolescentes apresentam a mair evasão escolar, o que reflete o descaso não só por parte dos alunos em relação a educação escolar, mas da relação inversa .
A escola é pouco atrativa, existe uma expectativa grande por parte do educando na sua introdução no ambiente escolar de aprendizado, as crianças ao iniciarem sua vida escolar apresentam grande interesse no que tange aos diversos tipos de aprendizagem, através do estímulo, ela está receptiva aos diversos tipos de saberes, além de apresentar grande interesse em novas descobertas,  mas parece que o entusiasmo é inibido durante a trajetória do educando, uma parcela significativa dos jovens, já mencionados nesse estudo, se mostra desinteressada, ou tem seu estímulo inibido ao longo do 1° grau. Não é objetivo desse estudo analisar os porquês da evasão escolar, mas analisar o objetivo da educação como emancipador social e do papel do professor como protagonista de mudanças, e porque não dizer,  de mudança de paradigma.
Ou seja, a educação escolar contemporânea está voltada para que objetivo, de atender os anseios mercadológicos, ou de atender os anseios dos educandos, ou seja, de emancipação social? E as relações construídas entre o sistema de ensino de países capitalistas de economia dependente, o caso do Brasil, atendem a quem? Aos interesses do mercado? Ou aos interesse sociais da população?  Sendo que grande parte da população, apesar do acesso, não possui grau de instrução que desenvolva significativamente seus anseios pessoais, coletivos, profissionais, intelectuais e que ao mesmo tempo atenda aos anseios mercadológicos do sistema econômico ultraliberal.

 
2 DESENVOLVIMENTO

 
É importante antes de entramos propriamente no objetivo do texto, de salientarmos qual a conjuntura econômica vigente em nosso país para começar o estudo pertinente a proposta do texto, de uma educação para além das relações mercadológicas, que atenda aos anseios da população e não apenas de uma parcela responsável pela concentração e manuseio da grande parte do capital oriundo desse sistema econômico, precisamos resgatar alguns conceitos.
De acordo com Cristian Caubet, não vivemos hoje num modelo novo de capitalismo, neocapitalista, mas sim num modelo capitalista de uma proporção em sua magnitude de desenvolvimento econômico, o capitalismo toma grandes proporções a partir da mundialização cada vez mais exacerbada, onde existe cada vez, mais nítido, grandes contrastes sociais. A luta de classes de Marx está cada vez mais acirrada, e mais presente. A população torna-se mais consciente, também por causa do processo de mundialização, que é o aspecto positivo, da sociedade do conhecimento, mas é através da educação que novos instrumentos de mudanças são construídos para e com a sociedade em geral.
Mészáros nos convida a pensar a sociedade tendo como parâmetro o ser humano, e para isso devemos superar a lógica desumanizadora do capital, que tem no individualismo, no lucro e na competição seus fundamentos. O que é educar, segundo Gramsci, senão colocar fim à segmentação entre Homo faber e Homo sapiens, é resgatar no sentido amplo o sentido estruturante da educação e de sua relação com as relações de trabalho, de suas possibilidades de criação, de formas criativa e principalmente emancipatórias. E ainda contribui o autor, que a educação não pode estar restrita ao ambiente escolar, além de ser constante.
A educação, em sentido amplo, desempenha uma importância enorme como fator determinante de mudanças, os primeiros passos para uma grande mudança social atualmente envolvem a necessidade de manter controlada o estado político hostil que se opõe, por causa de sua própria natureza antagônica a qualquer ideia de uma reestruturação mais ampla da sociedade. Portanto se faz necessário a negação radical de toda a estrutura de comando político do sistema do estado ultraliberal que defende seus próprios interesses. 
Diante do exposto acima, a tarefa histórica que temos que enfrentar é incomensuravelmente maior que a negação do capitalismo, a educação deve proporcionar a quebra das estruturas hegemônicas de produção. O conceito emprestado de Meszáros, para além do capital é inerentemente concreto. Ele tem em vista a realização de uma ordem social metabólica que sustente concretamente a si própria, sem nenhuma referencia autojustificativa para os males do capitalismo. E que diante da condicionalidade das demais manifestações de alienação que o sistema impõe a negação deve ser direta. Ou seja, a educação não pode estar entrelaçada às negações que o capitalismo oferece de forma osbcura, às condições de uma educação voltada para o mercado e não para o homem.(MESZÁROS, 2012)
Paulo Freire, educador brasileiro conhecido no mundo inteiro, disserta sobre o papel do educador dentro desse contexto e levanta alguns pontos importantes nesse estudo, dentro deles ressalta o compromisso do profissional da educação para com a sociedade. A primeira condição para que um ser possa assumir um ato comprometido está em ser capaz de agir e refletir, é preciso que seja capaz de, estando no mundo, saber-se nele,  saber que, se a forma pela qual está no mundo condiciona a sua consciência deste estar, é capaz, sem dúvida, de ter consciência desta consciência condicionada, ou seja, é capaz de intencionar sua consciência para a própria forma de estar sendo, que condiciona sua consciência de estar. (FREIRE, 1979)
   Ainda dentro da concepção freiriana, não é possível fazer uma reflexão sobre educação sem refletir sobre o próprio homem, para ele, a educação é uma resposta da finitude da infinitude, e ela é possível para o homem, pois este é inacabado e sabe-se inacabado, o que o leva a perfeição, para isso a educação implica uma busca realizada por um sujeito que é o homem e consequentemente, o homem deve ser o sujeito de sua própria educação, não podendo ser objeto dela. O autor completa, que por isso ninguém educa ninguém.(FREIRE, 1979)

 
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

 
Diante do estudo podemos concluir que uma educação voltada para atender as relações de mercado muitas vezes vão de encontro aos anseios do educando, e porque não da sociedade como ambiente das relações humanas, tendo em vista a manutenção do sistema econômico, os quais não atendem a todos os atores sociais. 
A educação em sentido amplo deve atender aos anseios do homem como protagonista de suas próprias mudanças e desejos. O homem, como ser complexo que é, não tem suas necessidades atendidas unicamente pelo mercado, o homem como ser humano, tem como fator determinante as suas relações humanas para com o meio, para com a sociedade em que vive e ajuda a desenvolver.
O homem não deve ser objeto das relações mercadológicas, e sim ser o precursor de sua própria mudança, individual e coletiva afim de assegurar que seus anseios pessoais sejam efetivamente atendidos, sem prejuízo de seus valores. O sistema econômico ultraliberal, não está para servir os anseios da população, que está em constante luta de classes, onde muitos são protagonistas de relações de trabalho e não de relações humanas, onde elas estão dissociadas. E que não atendem as perspectivas reais de mudanças sociais.

CANÇÃO PARA OS FONEMAS DA ALEGRIA

Peço licença para algumas coisas.
Primeiramente para desfraldar
este canto de amor publicamente.
 
Sucede que só sei dizer amor
quando reparto o ramo azul de estrelas
que em meu peito floresce de menino.
 
Peço licença para soletrar,
no alfabeto do sol pernambucano,
a palavra ti-jo-lo, por exemplo,
e poder ver que dentro dela vivem
paredes, aconchegos e janelas,
e descobrir que todos os fonemas
são mágicos sinais que vão se abrindo
constelação de girassóis gerando
em círculos de amor que de repente
estalam como uma flor no chão da casa.
 
Às vezes nem há casa: é só o chão.
Mas sobre o chão quem reina agora é um homem
diferente, que acaba de nascer:
porque pouco unindo pedaços de palavras
aos poucos vai unindo argila e orvalho,
tristeza e pão, cambão e beija-flor,
e caba por unir a própria vida
no seu peito partida e repartida
quando afinal descobre num clarão
que o mundo é seu também, que o seu trabalho
não é a pena que paga por ser homem,
mas é um modo de amar – e de ajudar
o mundo a ser melhor. Peço licença
para avisar que, ao gosto de Jesus,
este homem renascido é um homem novo:
ele atravessa o campo espalhando
a boa-nova, e chama os companheiros
a pelejar no limpo, fronte a fronte,
contra o bicho de quatrocentos anos,
mas cujo fel espesso não resiste
a quarenta horas de total ternura.
 
Peço licença para terminar
soletrando a canção de rebeldia
que existe nos fonemas da alegria:
cancão de amor geral que eu vi crescer
nos olhos do homem que aprendeu a ler.
 
Thiago de Mello, Santiago do Chile, verão de 1964.

 
REFERÊNCIAS

 
CAUBET, Cristian. O ultraliberalismo. Palestra uergs, setembro de 2010.
 
FREIRE, Paulo. Educação e Mudança.23° edição. Paz e Terra, 1979.

MÉSZÁROS, István. A educação para além do capital. 2° Edição. Editora Boitempo, 2012.