Sua revista escolar de filosofia.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Sempre, às vezes, nunca

Podemos ter uma breve reflexão sobre teologia e filosofia em uma frase?

"Deus perdoa sempre, os homens às vezes e a Terra nunca."


A declaração foi dada pelo Papa Francisco na Segunda Conferência Internacional sobre Nutrição, em Roma, há uma semana, ao falar sobre sustentabilidade. Disse o pontífice que a frase não é dele, mas de um "sábio ancião".

Que sabedoria estaria guardada na sentença?

Podemos dividir o assunto em três tópicos:

1 - Deus perdoa sempre. Na hipótese de existir Deus e de ele ser conforme a definição cristã, o perdão divino é ilimitado porque expressa o amor ágape, incondicional e motor da ação divina criadora e mantenedora da realidade. É transcendente e livre.

2 - Homens perdoam às vezes. O homem, síntese de espírito e matéria, é essencialmente imperfeito. Seu distanciamento do divino está na sua natureza ontológica. Como ser biológico, está sob leis necessárias. Como ser espiritual, é livre. O mal moral expressa vício, ignorância e egoísmo e o mal físico se deve à ligação com a materialidade, corruptível, transitória e limitadora, numa noção agostiniana. Mas o homem é capaz de agir com grandeza moral ao superar os condicionamentos naturais humanos, tornando-se livre na ação do dever prático, em linguagem kantiana.


3 - A Terra nunca perdoa. Ente inconsciente e determinado, o planeta segue princípios mecânicos. Não possui vontade e não pode refletir. Sob a ótica newtoniana, a natureza reage ao que a ela é feito. Entes inconscientes não são livres para tomar decisões e existem sob leis necessárias.




Você acredita que possa ser assim?


link e imagem: TN, odiarioverde

domingo, 19 de outubro de 2014

É feliz e pronto

Diante das incertezas da vida, precisamos de estímulos positivos algumas vezes.

Ter um pensamento otimista que nos faça avançar sobre barreiras e sermos pessoas realizadas.
Um mercado gigantesco de literatura voltada a oferecer fórmulas de sucesso prontas movimenta a venda de livros, por exemplo. Segundo uma projeção no início deste ano da Câmara Brasileira do Livro, o segmento da autoajuda tem sido uma das apostas editoriais para 2014.

Contudo, que tipo de sabedoria há na autoajuda?
É discutível, pra lá de discutível.

Vamos ver uma típica frase que serve de motor emocional e avaliar o que ela contém.

Diz o cartaz eletrônico que "a esperança é a única coisa mais forte que o medo".

É positiva, propõe uma reflexão sobre a necessidade de se ter esperança para ir adiante.

Porém, será que a sentença é uma verdade válida?

Spinoza, na terceira parte da Ética, capítulo chamado A origem e a natureza dos afetos, analisa a relação entre esperança e medo e chega a uma conclusão diferente do poeta que elaborou a arte aí acima.

Para o filósofo, esperança e medo são inseparáveis.

Se unem pela dúvida. A alegria esperada ou o sofrimento temido são possibilidades abertas nestas duas emoções instáveis. A esperança traz consigo o medo do fracasso. Com ele em baixa, ela se torna confiança e alegria. O medo vem acompanhado da esperança do sucesso. Se ela declina, ele se transforma em desespero.



A esperança quer derrotar o medo. O medo quer vencer a esperança. Mas, não podem, já que um contém o outro. A oscilação ente ambos é inversamente proporcional. A esperança elevada reduz o medo e vice-versa.

O que pode superá-los é a certeza.

Se você tem a certeza da tristeza e nada mais pode fazer, conforma-se. É infeliz sem contorno da situação. Contudo, ao estar conformado, deixa também de temer, pois o pior já está consumado. Nesse estado pode-se encontrar estabilidade.

Se você está certo da alegria e que nada pode tirá-la de você, então, é feliz e pronto.
Não precisa temer que este afeto tenha fim, pois pode garanti-lo a si próprio sua continuidade, o que também é estável.

A certeza elimina as oscilações entre esperança e medo e produz segurança.

De acordo?
Quais são as suas certezas?

imagens: novotempo, keepcalm.uk, kdfrases
link: dci

sábado, 18 de outubro de 2014

A mulher do outro

Em alguns lugares do planeta, neste momento, algo trágico acontece.

Ou é realizado.

Aquilo que acontece, é fatalidade, não é previsível ou controlável. Na Itália, o excesso de chuva dos últimos dias já matou algumas pessoas. Este é um exemplo.

Como o ebola, que avança no continente africano, na Europa e nos Estados Unidos.

Aquilo que é realizado é voluntário.

A sangrenta batalha em Kobani, na Síria, entre forças curdas, com apoio turco, sírio e norte-americano contra terroristas do Estado Islâmico segue fazendo vítimas. Outros conflitos na região também matam.

Isto preocupa você?

Comove?

Provalmente, por estar longe do Brasil, os problemas nacionais sejam mais impactantes.
Ainda mais, as questões próximas ao círculo de convívio de cada um. Isto é natural.

Mas, por quê?

Bom, a psicologia, pode dar uma resposta às reações humanas a estes estímulos. Outras ciências também podem.

Contudo, a intenção aqui é trazer a reflexão de Epiteto, filósofo estoico, para uma forma comum de reagirmos às fatalidades ou às circunstâncias que, deliberadas ou não, ferem nossos interesses.

Epiteto diz:

"Podemos conhecer a intenção da Natureza por meio das coisas em que não temos interesse algum... Falece a mulher ou o filho de outro? São casos humanos. Morre nosso filho ou nossa mulher? Logo então gememos e exclamamos: ai de mim! Conviria, pois, recordar o que fizemos nos mesmos casos, quando se tratava dos outros." (Manual, 26)

É possível ser racional em questões tão sentimentais?
Pode-se encarar as tragédias pessoais com esta serenidade?
O que diriam se perdas pessoais fossem tratadas com indiferença?
Importa o que diriam?

Para o estoicismo, a ataraxia ou serenidade é uma estado anímico desejável. Revela sabedoria e controle sobre si mesmo, ou seja, autarquia. A dor psicológica é resultante de ignorância. É efeito de não compreender que a realidade é regida por força superior à humana e por esta, incontrolável.

A intenção da Natureza, no dizer de Epiteto, se revela quando não estamos envolvidos na ilusão de posse e controle da realidade e das coisas, como quando criamos laços afetivos e tentamos cristalizar o real, o ser, detendo-o.

A realidade é impermanente.
Esta é a metafisica: tudo está em constante mudança.

E nós, nada podemos contra isto, a não ser aceitar e não se perturbar.

Esta é a paz.

Você concorda com os estoicos?


MONDOLFO, Rodolfo. O pensamento antigo. São Paulo: Mestre Jou, 1973.
fontes: Euronews, Público
imagens: Reuters, wikipedia

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Feliz or not feliz?

O comercial do chinelo Rider apresenta o conceito do #lifeaholic, um viciado na vida.
 
Mas, não qualquer vida.
Viciado na vida feliz.
 
A mensagem sugre que vale o que proporcionar a alegria de ser e estar. Este ideal hedonista extremo, imediatista, individualista e até inconsequente é forte nos dias de hoje.

E subverte até alguns valores. Por exemplo, a virtude, segundo a clássica definição de Aristóteles, está no equilíbrio. Porém, conforme a propaganda, enquadrada na cultura contemporânea, virtude agora é experimentar o excesso, o  que caracteriza o vício.

Uma cultura pós-metafísica centra o sujeito como fim em si mesmo. Dele e nele estão as razões pelas quais agir. O sistema de crenças deposita em cada um a capacidade de criar autonomia e conduzir a vontade com idependência e cuidado próprio, sem a necessidade de princípios universais e pretensamente verdadeiros que sirvam de modelo de conduta.

Você entende por que as religiões estão em crise, a não ser algumas que prometem satisfação já, com pouco sacrifício ou renúncia, garantida e com possibilidade de esticá-la pela eternidade?
 
Feliz or not feliz?

Definir felicidade pode não ser difícil. O complicado é realizá-la. Se entendida como o bem maior a ser alcançado por nós, onde reside?

No prazer?

Em qual tipo de prazeres?
Todos são iguais por definição?
 
Se assim for, o prazer em si mesmo torna-se indefinível e inefável, pois, se afirmarmos que o prazer é o prazer e pronto, nada dizemos sobre ele. Deste modo, é preciso acrescentar ao prazer qualidades que o expliquem. Com isto, são criadas distinções entre os prazeres. Nesta tarefa entram o intelecto e valores que orientam os julgamentos.

As relações entre o Bem, o prazer e o intelecto e qual o balanço entre hedonismo e racionalismo a ser feito para se ter uma vida feliz podem ser encontradas no Filebo, de Platão.
 
"[...] não dissimulemos as diferenças que há entre o teu bem e o meu bem; pelo contrário, salientemo-las e consideremo-las audaciosamente. Pode ser que, submetidas ao exame, elas nos revelem se devemos dizer que o bem é o prazer, a sabedoria ou uma terceira coisa." (PLATÃO)
 
O que se deve pesar na hora de determinar o que é lícito ao se agir com o objetivo de sentir prazer?
O que uma pessoa pensa sobre isto vale para todas?
 
Há princípios que podem ser universais para a conduta? 
São os princípios éticos?
 
E a moral, que diferença tem da ética?
Ela pode orientar seguramente ao prazer e à felicidade?
 
A mensagem do comercial da Rider se enquadra melhor na ética ou na moral?

Até onde se pode viver como um lifeaholic ou um pleasureaholic?

imagens: Rider.com, lelivros.club

 

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Você pode ser um velho

Você acredita que a sociedade contemporânea valoriza suficientemente a velhice?

A atual crise econômica global afeta severamente dois extremos da população: os jovens e os idosos.
O percetual de desemprego para estes públicos é elevado. Os jovens, pela falta de experiência profissional, em muitos casos. Em outros, pela qualificação alta, o que demandaria maior salário a ser pago. Já os mais velhos, pelos custos inerentes à idade e pela queda na força produtiva. Em outras situações, pelos vencimentos acrescidos de benefícios. Este tipo de trabalhador é demitido e substituído por mão de obra mais barata. Isto quando o posto de trabalho não é encerrado por corte de custo.

Segundo a Organização Internacional do Trabalho, no fim desta década, o planeta terá cerca de 213 milhões de pessoas sem emprego.

A necessidade de gerar renda cria uma série de problemas sociais associados à marginalidade econômica como aumento da violência, migrações clandestinas, fragmentação das famílias, empobrecimento regional, inchaços urbanos, depressões.

Isto poderia ser diferente se o modelo produtivo-consumidor fosse alterado.

Ou não?
Não está no sistema econômico a sua lógica?

Um relatório da Moody's Investor Service aponta um outro grave problema na economia para algumas nações influentes nas próximas decadas.

O envelhecimento acelerado da população.

Do ponto de vista da economia, mais velhos significam paralisia na renovação de trabalhadores com queda na energia produtiva e crescimento no pagamento das pensões.

É uma conta: cai a geração da receita e aumenta a da despesa.

Precisa-se contar ainda a rede de serviços e estrutura para atender as exigências de pessoas idosas, como o segmento da saúde, por exemplo e da mobilidade. Em tudo está o investimento.

Porém, em vez disto ser um problema, não se poderia vê-lo como oportunidade de correção no modelo econômico e administrativo dos países afetados?

Um idoso deve ser encarado como um improdutivo?

As economias cogitam seriamente ampliar formas de incluir os velhos no sistema ou mantê-los para evitar colapsos desastrosos. Medidas que precisam, por sua vez, serem saudáveis para os setores produtivos e as relações liberais predominantes no mundo enquanto assim for, até que se construam novos parâmetros mais socialmente justos.


Podemos refletir sobre isto trazendo à luz o pensamento antigo do filósofo eclético Marco Tulio Cícero.

De acordo com o romano envelhecer constitui sabedoria para aquele que experimenta o passar da idade e para sua comunidade.

 A velhice afasta da vida ativa e subtrai dos assuntos públicos? De quais? Daqueles que, sozinho um homem jovem e vigoroso pode enfrentar? Não há assuntos públicos que, mesmo sem força física, os velhos podem perfeitamente conduzir graças à sua inteligência? Porventura restava de braços cruzados Quinto Máximo? De braços cruzados também Lúcio Paulo, o Macedônio, teu próprio pai, o sogro do excelente homem que foi teu filho? E os outros velhos, os Fabrício, Cúrio ou Coruncânio, quando punha sua sabedoria e sua autoridade a serviço do Estado, não faziam nada? [...] Em verdade, se a velhice não está incumbida das mesmas tarefas da juventude, seguramente ela faz mais e melhor. Não são nem a força, nem a agilidade física, nem a rapidez que autorizam as grandes façanhas; são outras qualidades, como a sabedoria, a clarividência, o discernimento. Qualidades das quais a velhice não só não está privada, mas, ao contrário, pode muito especialmente se valer. (CÍCERO, 2010, p. 17-18)

Sob este pensamento, pode-se ver a importância de se envolver politicamente no debate. Fazer valer direitos conquistados, como no caso do Brasil, o Estatuto do Idoso, e trabalhar pela construção de outros, como regras trabalhistas e previdenciárias que ofereçam maior proteção e aproveitamento das pessoas em todas as idades, também na velhice.


Você se interessa pelas condições materiais e afetivas da velhice?
Você tem consciência de que pode envelhecer?
Como você se imagina velho?
Como projeta a sociedade na sua velhice?

Como você trata os velhos hoje?



Fonte: CÍCEERO, Marco Tulio. Saber envelhecer. Porto Alegre: LP&M, 2010.
links: G1, CNN
imagens: cialdinearruda, ipc, postopenochao

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

De que educação se está falando?

A Educação Básica brasileira possui diferentes problemas.

Eles são decorrentes da relação tensa entre as políticas públicas para o setor no que se refere ao financiamento, investimentos e passa pela formação e pelo estímulo dos professores, desembocando na realidade do aluno, sujeito de direitos nem sempre tratados dignamente na sociedade e que ingressam em classe para serem um elemento a mais a ser trabalhado.

É um retrato simplório da complexidade que é ensinar num contexto que enfrenta dificuldades em fazer da educação regular um valor efetivo para a construção do país.

Contudo, pontuar este cenário é tentar situar a seguinte questão:

os brasileiros colocam a escola básica em penúltimo lugar em importância na formação da cidadania.

O dado faz parte de uma pesquisa respondida por pessoas das cinco regiões do país.

Segundo a apuração, a família, a unversidade e a mídia são mais relevantes para instruir sobre a democracia participativa. O estudo mostra o efeito e expõe algo errado na causa, pois, a Educação Básica Nacional tem por objetivo expresso formar civicamente os estudantes.

A LDB 9.394/96 afirma isto e da lei emanam os parâmetros curriculares para as disciplinas.


 
TÍTULO II

Dos Princípios e Fins da Educação Nacional
Art. 2º.
A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de
liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno
desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação
para o trabalho.


No Projeto Político Pedagógico das escolas está consolidado este fim que, ao lado da preparação para o trabalho, dá as dimensões profissionais, políticas e sociais do ensino brasileiro.
 

A Filosofia, disciplina obrigatória do Ensino Médio e em alguns casos já estudada nas séries finais do Ensino Fundamental, tem função central no formação cívica dos estudantes. Com ela se aprende o refinamento crítico-argumentativo-conceitual necessário à cidadania ativa. As Orientações Curriculares para o Ensino Médio em Filosofia explicitam os objetivos da disciplina.

MEC
Espera-se da Filosofia, como foi apontado anteriormente, o desenvolvimento geral de competências comunicativas, o que implica um tipo de leitura, envolvendo capacidade de análise, de interpretação, de reconstrução racional e de crítica. Com isso, a possibilidade de tomar posição por sim ou por não, de concordar ou não com os propósitos do texto é um é um pressuposto necessário e decisivo para o exercício da autonomia e, por conseguinte, da cidadania.

O professor de Filosofia é preparado para desenvolver as competências exigidas dos alunos à cidadania, conforme afirmam as Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de Filosofia determinadas pelo Conselho Nacional de Educação. Entre o que se espera do professor da área está a



Capacidade de relacionar o exercício da crítica filosófica com a promoção integral da cidadania e com o respeito à pessoa, dentro da tradição de defesa dos direitos humanos.

Saber que uma mostragem revela estatisticamente que a escola não é sentida pelo público como essencial na formação cívica causa inquietação.

Ou deveria causar séria inquietação em quem pensa a escola e em quem a faz.

Seguindo a análise, os entrevistados, se consideram suficientemente politizados e cidadãos democraticamente ativos e conscientes do que seja a cidadania. Porém, os pesquisadores analisam o comportamento cívico médio da população e discordam.

E você, o que acha?

A cultura é um conjunto de significados reproduzidos com resistência dentro do sistema. A cultura política não escapa à dinâmica. E aquilo que é reproduzido pela família e pela mídia pode estar muito mais impregnado do senso comum, com equívocos tomados por acertos. Na universidade, o aluno já deveria ingressar mais consciente dos reais predicados de um cidadão, de direitos e deveres para o exercício político eficaz ao qual é chamado diariamente pela nação.

Ou não?

Cabe à escola a problematização desta realidade e a capacitação dos sujeitos à construção de novos e melhores valores.

Se o espaço escolar não é percebido e não intervém assim, de que educação se está falando?

link: O Globo
imagens: meionorte, correiodesantamaria

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Como pode ser tão bom?

Você tem medo do mal?
Do mal que pode sofrer?
Do que pode praticar?

Afinal, o que é o mal e porque ele está no mundo, é velha questão filosófica em eterno retorno à reflexão, philosopher, my friend.

Veja nossos dias como estão.

Na região norte do Iraque, famílias yazidis abandonam suas terras. Elas receberam um ultimato das forças jihadistas do Estado Islâmico, que por sua vez instituiu o antigo regime despótico do califado em algumas áreas controladas, para que se convertam ao Islã ou sejam executadas.

Cerca de 500 pessoas foram mortas nos últimos dias por razões religiosas no país pelos radicais muçulmanos. 



Centenas já foram mortos em várias cidades desde o início do levante e na semana passada os Estados Unidos lançaram um bombardeio aéreo sobre os combatentes da jihad.

Segue o conflito na Síria, na Palestina, em nações africanas e entre nós, por outras razões absurdas que levam à violência, como o futebol.

Outro fator que assusta o planeta agora é a possibilidade real de uma pandemia do Ebola.

As autoridades brasileiras em saúde já informaram estar preparadas para combater o vírus, caso ele chegue. Na semana passada a Organização Mundial da Saúde decretrou emergência de saúde pública internacional.

Até aí, nada de novo, apesar de trágico.

Atritos homem-homem e homem-natureza são riscos em todas as épocas.


E eles remetem a reflexão ao mal moral e ao mal metafísico.

Entende-se o mal sob algumas concepções fundamentais. O mal como oposição ao ser; o mal como estrutura antagônica do ser e o mal como juízo de valor.

O mal como o não ser afirma que não há substância no mal, logo, ele não existe de modo concreto e é a percepção da ausência de realidade. Para o idealista, como para o neoplatônico ou o cristão, o mal é próprio do mundo físico constituído de matéria, a oposição ao ser real ideal. O mal é a privação do bem, o não estar do ser. O mal moral ocorre quando o homem se deixa levar pela finitude de sua condição e age por interesses a ela ligados, como os vícios em vez das virtudes

No livro Cândido, Voltaire combate a tese de Leibniz de que este é o melhor dos mundo possíveis porque entre todas as possibilidades, este é o que existe e há mais perfeição naquilo que existe do que naquilo que não existe.


No entanto, este é um mundo repleto de dores.

Como pode ser tão bom?

O mal real estrutural diz que ele é substancial e contrário ao ser. São coexistentes e fundamentados por princípios antagônicos. Para os maniqueístas, por exemplo, bem e mal são forças em combate no universo e ambas existem com a mesma realidade. No romantismo, algo semelhante a esta ideia vai dizer que Deus contém tanto o ser quanto uma natureza irracional e obscura em luta para se tornar consciente. O homem é uma partícula reflexiva desta estrutura.

O mal como juízo de valor desconsidera a substância do mal e o entende como resultado do julgamento moral. O bem é o que se quer e o mal o que se repele. Assim, o mal moral fica definido segundo os costumes ou pela deontologia como lei ética universal e o mal metafísico como interpretação dos fenômenos reais.


Um vírus que mata pessoas é mais mau do que vírus que mata só animais.

Você era indiferente ao ebola enquanto ele parecia mais distante?
Agora ele parece um mal maior por estar mais próximo?
Deve-se temer o mal no mundo ou ele é uma ilusão, tem menor valor do que o imaterial, real e original?
Para você o mal pode ser vencido? Como? 

Ou o mundo é como é e dele não devemos ingenuamente esperar mais do que aquilo que temos, nem ser mais do que aquilo que somos?  

 imagens: La Nueva España, NBC, informecritica

links: euronews, Estadão

 

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Um bom vinho, por favor

Tudo bem.
Você vai morrer mesmo.
 
Calma!
 
A morte é certa pra todos, mas aqui é uma situação hipotética.
 
Voltando à questão, você foi internado e vai chegar logo ao fim da vida. Então, por que não beber um bom vinho entre parentes e amigos, fazendo novos, quem sabe, enquanto a existência se esvai, num agradável bar no próprio hospital?

Uma instituição de Clermont-Ferrand, na França, decidiu abrir uma adega para pacientes terminais.
 
A medida inédita no país, implantada pela diretora do centro de saúde, Virginie Guastella, pretende humanizar o atendimento para estes pacientes e seus amados, proporcionando prazeres que amenizem dores.

Uma concessão ética interessante e bem contemporânea. O prazer, entendido aqui como móvel da ação humana, deve ser procurado e favorecido, pois ele é a razão do agir. Uma vida sem prazeres não é uma vida boa de ser vivida. 

Enquadrando a proposta médica no princípio utilitarista, ela objetiva oferecer maior satisfação e alegria a um determinado público, minorando seu sofrimento.

Você aprova isto?

fonte: O Globo
imagem: viajarnafranca

 

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Ela não era quem se pensava que era

Você já leu a obra A menina que roubava livros?

Um dos capítulos se chama 'O incidente Jesse Owens'.

Ele descreve um dia em que o menino Rudy se pinta de carvão para viver a glória do atleta negro norte-americano que acabou com a pretensão esportiva nazista nos Jogos Olimpicos de 1936, em Berlim.

A ficção escrita por Markus Zusak em 2006 retrata o drama do totalitarismo alemão durante a Segunda Guerra Mundial e mergulha em contradições e absurdos do hitlerismo.


É excelente literatura.

Da imaginação aos fatos




Quando Jesse Owens humilhou o Reich nas pistas de atletismo em 36, deveria ter sido o suficiente para denunciar a loucura nazista da superioridade da raça ariana. Mas, tratada como acidente, a derrota germânica não impediu Hitler de comandar o holocausto nos anos seguintes.

O mito do arianismo, como qualquer outro, não possui bases objetivas.
 
André Comte-Sponville define o mito como "uma fábula que é levada a sério."

Nicola Abbagnano aponta três definições elementares para o mito:
- forma atenuada de intelectualidade;
- forma autônoma de pensamento ou de vida;
- instrumento de estudo social.

O mito serve, portanto, como fator a ser investigado para compreender o comportamento coletivo, como paradigma próprio e sem objetividade para explicar a realidade e tudo isto por ser um modo subjetivo de conceber os fatos.

O mito carece da objetividade científica, como apontado pelo Positivismo, por exemplo, ou por Francis Bacon, antes. Está epistemologicamente situado entre as crenças, não entre o conhecimento.


Foi para superar o mito como explicação total do Ser que nasceu a Filosofia.

Mas, vamos voltar ao mito da super raça ariana instituído pelo nazismo. Como fábula, na definição de Comte-Sponville, para ser construída, é preciso contar com a criação de fatos e narrativas que tenham a aparência da verdade.
 
Na Alemanha do Terceiro Reich, a propaganda disseminava a ideologia como nunca antes havia ocorrido. O governo utilizada técnicas e instrumentos de comunicação de massas para transmitir e consolidar os fundamentos morais, políticos e sociais do partido formando ideologicamente a sociedade civil e com isto reforçando a legitimidade do regime.
 
Uma das campanhas, chamada Sol em casa, era levada aos lares para a idolatria da perfeição anatômica da pessoa germânica.
Uma menina ilustrava os cartazes. 
 
Ela era judia.
 
Isto mesmo, judia. Do povo classificado como verme pelos nazistas e algumas vezes antes, como na expulsão deles da Europa medieval.
 
Aos 80 anos, Hessy Taft, que mora nos Estados Unidos, contou que hoje pode revelar sua identidade sem o risco de ser assassinada.
 
 
 
Será?
 
Quem contou a história a ela foi a mãe. A menina foi fotografada por um fotógrafo que tinha a intenção de ridicularizar o nazismo. A imagem dela foi adotada pelo Ministério da Propaganda comandado por Joseph Goebbels.

Em um mundo onde se mata por pouco, também por ideais e doutrinas, a ironia expõe o ridículo.
 
Veja o que está ocorrendo no Iraque, onde milhares já foram assassinados pelos jihadistas do ISIS no levante que proclamou a reinstituição do califado, extindo em 1924 com o fim do Império Otomano.
 
 
 
 
Você acredita que o mito é suficiente para definir e sustentar uma cultura?
Para fazê-la superior a outra?
Conflitos como os que há entre judeus e muçulmanos possuem raiz em mitos?
Há maneiras de superar o mito?
Ou ele é uma necessidade humana, um modo lógico de explicar o real a partir de estruturas básicas, como sugere a antropologia de Lévi-Strauss e que não pode ser desprezado?


COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário filosófico. São Paulo: Martins Fontes, 2011.
ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2012.
links: La Repubblica, Jesse Owens.com, El Universal
imagens: larepubblica (ansa), galleryhip, universodosleitores, bundesarchiv_bild, HRW/AFP
 

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Gramsci e a Venezuela

O grupo militar conhecido como 4F, doutrinado na revolução socialista e próximo às ideias de Hugo Chávez dá sinais de que abandona o governo de Nicolás Maduro.

Isto pode significar o fim do chavismo.

Há razões para acreditar nisto?

Uma análise conduzida por conceitos desenvolvidos por Antonio Gramsci permite lançar um olhar crítico sobre a situação no país.

Clique aqui e leia uma opinião no Capinando.

foto: Reuters
link: International Gramsci Society